MEIO-RELEVO

Acabei ontem a produção das réplicas de azulejos e frisos em meio-relevo, da antiga Fábrica de Sacavém, que me foram pedidas para o revestimento de uma pequena fachada em Olhão – 200 azulejos e 100 frisos, feitos de raiz, totalmente à mão, um a um.

A execução de um protótipo foi bastante complexa e teve de ser executada através de um positivo e de um negativo e não sei como, porque nunca me aconteceu, enganei-me várias vezes sempre no mesmo ponto e por várias vezes troquei côncavos com convexos e convexos com côncavos  e por várias vezes tive de repetir o molde até chegar a um azulejo com um relevo semelhante ao dos originais.

A manufactura de chacotas foi morosa, o barro que utilizei seca facilmente e é difícil de amassar e mais uma vez desejei ter uma pequena fieira que me ajudasse nesta tarefa. Cada unidade foi prensada manualmente e a sua secagem foi vigiada com cuidado, a fim de minimizar o mais possível os empenos naturais deste processo de fabrico e de aproximar o seu aspecto ao das industriais, completamente planas, impecáveis.

Os vidrados também tiveram o seu quê. Para além dos tons, que não foram fáceis de encontrar e estando a falar de vidrados transparentes, altamente fundíveis, aplicados sobre um relevo, convém que integrem na sua composição um elemento estabilizante que lhes aumente a viscosidade de modo a que se mantenham fundidos sobre a peça sem escorrer. Foram realizados inúmeros testes em busca dos tons exactos e da consistência perfeita; inúmera esperança e desilusão, sendo que com esta última acrescenta-se ainda dois dias a descontar no prazo de entrega da encomenda.

Depois, a vidragem. Os vidrados foram aplicados manualmente, com pêra de borracha, um a um, tom por tom; primeiro o fundo, depois os relevos, com cuidado para não borrar, raspando ora aqui, ora ali; foi pela via mais difícil, de certeza que não foi assim que fizeram isto originalmente, mas na verdade não faço a mínima ideia de como é que fizeram isto originalmente, sendo um processo industrial, em que não se perdia tempo com estes preciosismos.

Ontem cozi os últimos 60 azulejos que faltavam, todos aqueles que precisaram de levar retoques e cozerem uma segunda vez. Amanhã saem do forno, espero que esteja tudo bem. Não estão perfeitos, mas não consegui melhor. Agora quero vê-los na parede.

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TESTES DE COR

Tenho andado atrapalhada a fazer testes de cor para passar à fase final da manufactura das 300 réplicas de azulejos em meio-relevo que me foram pedidas para revestir uma pequena fachada em Olhão.

As chacotas estão todas feitas e neste momento mais de metade está já cozida, sendo que as restantes estão ainda em fase de secagem, quase secas. De momento o que me preocupa – mentira; preocupou-me sempre, desde o início do trabalho -, é a fase da vidragem e não estou a falar apenas da obtenção das cores, que já de si também não são assim tão lineares; refiro-me sobretudo à técnica de vidragem, ao modo como deverei aplicar o vidrado sobre a chacota afim de conseguir uma camada vítrea transparente assim tão fluida, e que de certeza não será igual ao processo de fabrico original, visto que estou a falar de azulejos industriais, os quais estou a tentar reproduzir à mão, 300 unidades, um a um, o mais fielmente que conseguir.

Assim sendo, tenho já aqui testes para todos os gostos e feitios; cores mais vibrantes, cores menos vibrantes, vidrados aplicados à trincha, com pincel e com pera de borracha, por mergulho, por mergulho e acabamento a trincha; vidrados sobre vidrados, pigmentos por baixo de vidrados; enfim, uma parafernálea  de experiências que servem acima de tudo para criar expectativas e alguma frustração ao abrir o forno, até se ter uma outra ideia, que certamente irá resultar e então, começar tudo do novo.

Para dificultar a coisa tenho comigo apenas um exemplar, quer do padrão, quer do friso, o que me limita o trabalho, pois fico obcecada com a obtenção daquele resultado, tendo a certeza de que se tivesse mais originais comigo também eles variariam entre si.

Isto tudo para dizer que hoje fiz mais um teste que está agora a cozer e cujo resultado vejo amanhã – espero que seja o último, pois o prazo de entrega começa a apertar e tenho de avançar rapidamente para a produção.

 

 

POSITIVO

Hoje comecei a fazer o protótipo do azulejo em meio-relevo que tenho de reproduzir para uma pequena fachada de uma casa em Olhão.

Das outras vezes que fiz protótipos de azulejos deste tipo, optei por gravar os motivos directamente no gesso e trabalhar em negativo – técnica que exige maior atenção para não se trocarem os côncavos com os convexos, mas que permite trabalhar com mais rigor e precisão.

Desta vez, não sei porquê, resolvi começar por fazer o positivo, que é o que à partida parece ser o mais lógico. Tive de cortar a placa de barro já há alguns dias, para que hoje pudesse estar em ponto de couro, aquela fase da secagem em que a peça apresenta a consistência adequada a poder-se trabalhar com precisão, sem se deformar, e passei o dia a escavar cuidadosamente todo o fundo à volta dos motivos até conseguir que estes ganhassem alguma volumetria – o tal meio-relevo.

 

 

ESTAÇÃO DE AVEIRO

Comecei o ano a pintar 24 réplicas de azulejos para colmatarem as lacunas existentes nos revestimentos das floreiras das janelas da antiga estação de comboios de Aveiro.

O conjunto azulejar desta estação, datado de 1916 e produzido na extinta Fábrica de Louça da Fonte Nova, é composto por 28 painéis de azulejos policromos (azuis e amarelos), da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto, os quais representam cenas ferroviárias, paisagens naturais, figuras populares e actividades tradicionais ou monumentos desta região.

Para além destes painéis figurativos, a estação encontra-se ainda decorada do chão até ao telhado, quer na fachada exterior, quer na fachada que dá para o cais, com uma série de azulejos distribuídos por pequenas cartelas, molduras recortadas e revestimento das floreiras das janelas do andar superior, o que faz com que todo este conjunto seja considerado um prodígio decorativo – e que agora está a ser restaurado.

2020

Acabei o ano atarefada e comecei 2020 também atarefada.

Os projectos têm surgido e apesar de eu considerar que não há trabalhos mais importantes do que outros, a verdade é que alguns acabam por se impor pelo seu tamanho ou pelos prazos apertados que gosto de cumprir.

Isto para dizer que finalmente consegui reciclar todo o barro seco que tinha há que tempos dentro de um alguidar e lá arranjei coragem para o ir amassando, de acordo com a manufactura de uma série de azulejos de diferentes tamanhos e tipologias e espessuras, que me foram pedidos há algum tempo – e sem pressa – para vários projectos também eles com diferentes tamanhos e tipologias e espessuras.

Escusado será dizer que o fiz na época mais húmida do ano e que a oficina está gelada, portanto, ainda vão demorar a secar…

 

ESMERALDA

Saíram hoje do forno os últimos azulejos manuais que fiz para o Atelier de Arquitectura Inês Brandão e que irão forrar a chaminé da cozinha de um apartamento que está a ser renovado no centro de Lisboa.

Estou muito satisfeita com este trabalho, é o tipo de encomenda que gosto: quantidade controlada de azulejos – 2m2 apenas -, a qual pode ser feita cuidadosamente e com tons personalizados de acordo com o pedido do cliente. Dentro do orçamento estavam contemplados testes de cores, não só de vidrados, como também de tintas e ainda duas amostras no formato final. E se assim não fosse, nunca me ocorreria utilizar este vidrado tão branco como fundo, nem este verde esmeralda ou azul esmeralda, ou o que lhe queiram chamar – depende do nível de daltonismo de cada um -, pois estou demasiado formatada no clássico azul escuro sobre branco antigo. E assim ficaram lindos!

ILUSTRAÇÃO CIENTÍFICA

Estou muito satisfeita com o conjunto de azulejos que pintei por encomenda para a Universidade da Lapónia e cujos desenhos aguarelados chegaram por carta directamente à caixa do correio aqui da oficina.

Foram 18 ilustrações botânicas diferentes, com representações científicas de plantas do Ártico, bastante detalhadas e minuciosas; as quais reproduzi manualmente, uma a uma, sobre o vidrado crú, com o rigor e a obsessão de quem teve formação e trabalhou em restauro durante 20 anos e que agora ganha a vida a fazer réplicas de azulejos quase miméticas – uma trabalheira, portanto; muito maior do que aquela que avaliei ao princípio, quando julguei que era apenas para pintar flores.

Foi toda uma linguagem nova, muito diferente da que estou habituada e a sua aprendizagem foi principalmente o que ganhei com este trabalho. Tenho pena que me tenham encomendado azulejos industriais finos, de 15×15 – os mais feios de todos, aqueles que eu não uso nunca! – mas enfim, acho que agora consigo ponderar voltar a pintar alguns destes desenhos em azulejos manuais, feitos aqui na oficina, muito mais bonitos. E só porque sim.

 

 

 

RUBUS CHAMAEMORUS

E quando tudo levava a crer que já tinha terminado a encomenda para a Universidade da Lapónia,  que já tinha falado aqui, eis que recebo ainda mais três imagens destas pequenas plantinhas resistentes ao frio, as quais pintei em mais três azulejos, aumentado o número total para 18 azulejos.

A última a ser pintada foi esta pequena plantinha silvestre, resistente ao frio, que pode crescer em latitudes tão elevadas como por exemplo 78ºN, de seu nome Rubus Chamaemorus, a qual produz uma pequena amora linda, cor-de-laranja; ao que parece, um fruto suculento muito saboroso, com o qual se pode fazer compotas, sumos, gelados, tartes e licores!

 

RELAXADA

Estou quase a acabar de pintar os quinze azulejos com várias ilustrações de plantas do Ártico, que me encomendaram da Finlândia.

Foram-me enviadas fotocópias a cores com os desenhos a reproduzir, os quais tiveram de ser redimensionados para o tamanho dos azulejos – 15x15cm, neste caso -; uns foram aumentados, outros reduzidos e no final cada ilustração é relativamente pequena e tem alguns detalhes que custam a entender.

Confirmei mais uma vez como é importante usar as ferramentas adequadas a cada tarefa que se faz e agora trabalho levemente com a pontinha de pincéis cada vez mais fininhos, que raramente uso; a paleta de cores é aguada q.b., os tons são aplicados por camadas, primeiro os mais claros, depois os mais escuros. Não estou habituada a pintar desenhos assim tão delicados; tento que pareçam o mais natural possível, mas tenho dificuldades – são os pincelinhos, são as cores, as tintas, a escala e o pormenor. No entanto, à medida que avanço de uns para os outros vou compreendendo cada vez melhor o que é que devo fazer e como é que devo fazer; depois relaxo e deixo a mão executar – se calhar, no final, deveria repetir os dois ou três azulejos que pintei no início, mas não sei se vou ter paciência para isso.

 

 

 

CASSIOPE TETRAGONA

Comecei ontem a trabalhar na encomenda de 15 azulejos com ilustrações de plantas nativas do Ártico, para enviar para a Finlândia no final deste mês.

As ilustrações têm muito detalhe e é tudo muito pequenino; para já tenho estado a fazer os estregidos, que me estão a dar mais trabalho do que aquele que esperava, pois convêm ter um picotado apertadinho, para ficarem com melhor definição – e já estou a com os olhos em bico.

Amanha de manhã, quando a luz é melhor aqui na oficina, começo a pintar a Cassiope Tetragona, uma planta anã, que pelos vistos gosta de frio e se encontra por todo o lado no alto Ártico e norte da Noruega.