ESTAÇÃO DE AVEIRO

Comecei o ano a pintar 24 réplicas de azulejos para colmatarem as lacunas existentes nos revestimentos das floreiras das janelas da antiga estação de comboios de Aveiro.

O conjunto azulejar desta estação, datado de 1916 e produzido na extinta Fábrica de Louça da Fonte Nova, é composto por 28 painéis de azulejos policromos (azuis e amarelos), da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto, os quais representam cenas ferroviárias, paisagens naturais, figuras populares e actividades tradicionais ou monumentos desta região.

Para além destes painéis figurativos, a estação encontra-se ainda decorada do chão até ao telhado, quer na fachada exterior, quer na fachada que dá para o cais, com uma série de azulejos distribuídos por pequenas cartelas, molduras recortadas e revestimento das floreiras das janelas do andar superior, o que faz com que todo este conjunto seja considerado um prodígio decorativo – e que agora está a ser restaurado.

COROAÇÃO DA VIRGEM

Há coisa de um ano estive ocupada com a manufactura de cerca de oitenta réplicas de azulejos de padrão do séc XVII, para colmatarem as lacunas que existiam no interior de uma pequena igreja na Louriceira e que na altura falei aqui.

Os trabalhos de conservação e restauro da igreja entretanto continuaram e fiquei agora a saber que, aquando da intervenção no revestimento azulejar, foram encontrados alguns azulejos figurativos que se encontravam assentes por aqui e por ali, no meio da padronagem e que depois de montados e organizados, vieram a revelar um registo votivo à Virgem Maria – o que faz sentido, uma vez que esta igreja ainda hoje é uma igreja de culto Mariano.

O painel  chegou aqui à oficina com dez azulejos em falta e segundo percebi, foi feita alguma investigação para se tentar encontrar alguma imagem antiga ou gravura na qual se conseguisse ver como seria o desenho original, a qual resultou em nada. A ideia de fazer azulejos lisos, sem desenho e dentro dos tons dos azulejos envolventes, foi posta de parte pela própria igreja, que alegou que sendo a mesma devota ao culto Mariano e estando o painel exposto, os crentes gostariam de rezar a uma imagem completa – o que para mim, apesar de não professar nenhuma religião, faz todo o sentido.

Decidi fazer o desenho o mais simples possível, tentando não inventar muito – ora fazendo simetrias, ora seguindo pormenores do desenho do azulejo anterior, ora dando continuidade a linhas e tons e manchas cromáticas; como se fosse possível saber o limite entre o inventar muito e o inventar pouco.

Adoro estes pequenos registos religiosos do séc. XVII, feitos com tanta ingenuidade por artesãos sem grandes noções de desenho, mas confesso que a coisa não foi totalmente fácil; por vezes não havia nenhum indício por onde me guiar, não existiam simetrias, o desenho não parecia fazer nenhum sentido e os azulejos envolventes não pareciam bater certo uns com os outros – várias vezes verifiquei as posições, mas estavam todas correctas. Nalguns pontos limitei-me apenas a prolongar um pouco as linhas de contorno existentes e assim as deixei ficar, sem saber o que fazer com elas.

Para não falar dos tons, claro – o manganês é muito instável e difícil de trabalhar e tenho pouca experiência na aplicação do verde cobre à pintura; já para não falar do vidrado branco do fundo, tão pouco branco.

Enfim, o desenho foi aprovado por parte da igreja e os azulejos foram pintados – alguns pormenores resultaram melhor do que outros; agora se calhar fazia-os doutra maneira, porque me parece que os originais não seriam bem assim; mas na verdade não faço ideia nenhuma de como seriam e todas as hipóteses poderiam ser sempre diferentes e esta até está razoável.

E agora recebi a fotografia do painel restaurado e já aplicado na parede; a ver se um dia destes consigo ir à Louriceira para visitar a Igreja Matriz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BISELADOS

Às vezes as coisas mais simples acabam por se revelar as mais complicadas. Tenho andado aqui às voltas com experiências de vidrados para tentar encontrar a cor de mel mais parecida – já não digo igual – à do azulejo biselado que me entregaram a fim de eu fazer algumas réplicas para um pequeno edifício na Ajuda.

A coisa não tem sido fácil, mas felizmente ocorreu-me pedir uma fotografia da fachada em questão e – tal como já devia estar cansada de saber – os azulejos originais variam de tons quase tanto como os meus, mais a mais tratando-se de vidrados transparentes coloridos com óxidos metálicos.

Assim sendo, e em boa hora, dou por terminada esta tarefa; a continuar assim, em breve arriscava-me a ter mais experiências de cor do que as cerca de quarenta unidades que preciso de fazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INVULGARES

Comecei a ver os resultados da empreitada da manufactura de réplicas de azulejos que estive a fazer para a fachada de um antigo edifício no centro de Lisboa a qual me manteve bastante ocupada nestas últimas três semanas.

Estou bastante satisfeita; os mais complexos de fazer, estes azulejos de estampilha com acabamentos à mão, cuja padronagem é bastante invulgar – pelo menos eu nunca a tinha visto e eu já vi muita padronagem azulejar! – ficaram bastante bem e já estão prontos a irem para a parede.

PINTURA

Tenho andado ocupada com a manufactura de réplicas de azulejos para a fachada de um prédio bem conhecido no centro de Lisboa – que em breve dará lugar a mais um hotel na Baixa Lisboeta.

Tratam-se de azulejos de diferentes dimensões e técnicas e épocas e cores e tons; com motivos repartidos entre padronagens, barras, cercaduras e figurativos – no total, catorze tipologias diferentes, as quais têm de ser feitas de acordo com as quantidades que faltam a cada uma; ora três, ora sete, ora vinte e duas do lado esquerdo, ora dezasseis do lado direito; esta já está acabada, aquele não ficou bem; vou ter de repetir.

Aos poucos a coisa avança, com alguma calma e atenção, mas a bom ritmo. No total são um pouco mais de duzentos e cinquenta.

MANGANÊS

Depois de alguns testes de cor, comecei finalmente a produzir as cerca de 100 réplicas de azulejos de padrão para a fachada de um edifício em Setúbal – e depois, os 100 frisos que acompanham a padronagem.

Tive alguns problemas com a obtenção do preto, que nunca ficava uma mancha tão escura como a dos azulejos originais – na verdade e ao contrário do que parece à primeira vista, a mancha não é preta, mas sim um roxo muito escuro feito com óxido de manganês o qual, em concentração elevada, chega a ter tonalidades negras.

A questão é que o óxido de manganês é bastante instável e altera facilmente de forno para forno; de fornada para fornada e até mesmo dentro de uma só fornada, dependendo da zona em que é colocado; portanto estou sempre bastante insegura quanto aos resultados que irei ter depois dos azulejos estarem cozidos. A ver vamos.

TESTES DE COR

De volta à oficina e às mãos na massa depois de uma estada fora para banhos e limpeza da cabeça.

Para já, a rentrée coincide com um novo projecto – manufactura de réplicas deste azulejo de padrão e respectivos frisos, cerca de 200 unidades no total que irão colmatar as lacunas existentes na fachada de um edifício em Setúbal. As estampilhas já estão cortadas e os primeiros testes de cor, acabados de pintar, vão hoje para o forno.