QUARTO DE QUATRO

Terminei hoje o último quarto do painel que tenho estado a pintar para o revestimento de um balcão com quatro metros de comprimento e que tenho de entregar no dia 17 deste mês.

Estou ansiosa para finalmente ver o painel inteiro – vai a cozer esta noite e entretanto tento arranjar espaço para o estender no chão aqui da oficina; confesso que estou um pouco receosa com as transições entre os quatro segmentos, não tenho a certeza se são feitas harmoniosamente ou não. De qualquer modo e, à cautela, daqui a dois dias já vejo resultados e se alguma coisa estiver mal, ainda tenho tempo de a refazer ou aperfeiçoar e entregar tudo no prazo pedido.

 

 

 

AZUL E BRANCO

Às vezes acontece-me isto. Pedem-me um orçamento para a manufactura de um painel de azulejos, com um determinado tipo de decoração e tamanho e até amostras de cor de possíveis vidrados em tons âmbar e depois, afinal, o painel vai ser maior do que aquilo que estava previsto, os vidrados transparentes desaparecem e a decoração pedida passa a ser aquela tradicional, figurativa, a azul e branco – aquela que eu não sei fazer e que normalmente recuso; não sou uma pintora de painéis de azulejos, há quem faça disso a sua vida e o faça muito melhor do que eu.

Mas às vezes acontece-me isto; e não sei bem como, nem de que maneira, mas dei por mim a pintar uma paisagem rural, a azul e branco, num painel de azulejos de quatro metros de comprimento, que ainda por cima não me cabe todo no taipal e que tem de ser pintado em quatro quartos, um de cada vez e que tenho a sensação de ir avançando com o trabalho sem ter bem a certeza do que é que estou a fazer e sempre com medo que saia tudo mal, mas enfim; eu avisei.

 

 

 

ALICATADOS

Acabei finalmente a manufactura de todos os azulejos que me foram encomendados para a nova cafetaria do Palácio Nacional de Sintra.

Na sua maioria, foram azulejos manuais lisos, quadrados, de várias dimensões e também alguns frisos, uns mais curtos e outros mais longos, para forrar o balcão e as mesas altas, e ainda uma série de paralelogramos para compor um painel de tipo alicatado, baseado no revestimento azulejar da Sala Árabe, que apresenta uma composição geométrica de efeito tridimensional, e que irá decorar a parede de entrada.

CORAÇÃO MASAI

 

Coisas giras que às vezes tenho de fazer aqui na oficina: desta feita, um pequeno painel de azulejos em forma de coração, encomendado especificamente para oferecer num casamento em que a noiva é portuguesa e o noivo é queniano.

O painel exprime a união destas duas culturas, representadas pelos azulejos portugueses e pelas coloridas contas Masai, existentes nos adornos usados por este povo semi-nómada, localizado no Quénia e norte da Tanzânia. Estas peças carregam um grande simbolismo social, não só pelo tipo e forma de ornamentos, como também pelas cores neles utilizadas, onde cada uma tem o seu significado:

Preto: simboliza o próprio povo e as lutas que tem de travar;

Vermelho: é o sangue, a bravura e união;

Branco: representa a paz, a saúde e a pureza;

Amarelo: Sol, fertilidade e crescimento;

Azul: indica o céu e a energia,

Laranja: significa a amizade, a generosidade e a cordialidade.

O painel já seguiu viagem para o Quénia e agora estou muito curiosa para ver a fotografia da reacção dos noivos ao receberem-no no próximo domingo.

 

 

VOCÊ ESTÁ AQUI

 

Título: Você está aqui

Painel de azulejos apresentado no âmbito da exposição RE7 By the Nest, baseado na malha urbana de um dado lugar, feita pela conjugação de edifícios e infra-estruturas existentes e de espaços vazios, não edificados.

140cmx140cm

 

MODERNOS

Sexta-feira passada recebi um telefonema a convidar-me para participar numa exposição que irá inaugurar hoje e que estará em exibição durante sete dias; que tinham visto o meu trabalho no meu site e que tinham gostado muito e que gostariam muito que eu participasse com as peças que quisesse, bastando apenas enviar o nome das mesmas e uma pequena sinopse para cada uma.

Explicaram-me depois que se trata de um evento cultural organizado e promovido por uma agência imobiliária, a Louvre Properties, cujo objectivo é representar a simbologia do renascimento de um edifício no centro de Lisboa. O evento chama-se RE7 By The Nest e conta com 7 expressões artísticas, distribuídas por 7 pisos, durante 7 dias – ao fim dos quais o edifício entra em obras e terá uma nova vida.

Expliquei que não, que agradecia muito o convite, mas que eu não era nenhuma artista; que o meu trabalho é essencialmente realizado  no âmbito de intervenções de conservação e restauro de azulejos e que basicamente o que faço vai para as paredes anonimamente e que não tenho praticamente criação própria nem nenhum espólio guardado para expor.

Mas depois de abrir todos os armários aqui da oficina encontrei os azulejos baseados no Movimento Moderno da arquitectura portuguesa, que criei há alguns anos e que por sorte tinha uns quantos já vidrados e outros apenas enchacotados, à espera de algum vidrado que lhes ficasse bem, de acordo com a encomenda de quem os quisesse levar – o que nunca aconteceu.

De modo que, algumas insónias e algum trabalho mais tarde, consegui criar um painel de azulejos cujo nome e sinopse explicativa têm a ver com este evento em concreto, e que desta forma conferem a este conjunto de azulejos antes soltos, o estatuto de “peça”, onde agora cada um deles tem uma posição própria dentro do todo, com a devida marcação alfa-numérica no tardoz.

E que neste momento já está montado no local, à espera da inauguração da exposição, que ocorrerá daqui a três horas e de ser visto nos próximos sete dias.

A questão agora é – vou de saltos altos ou quê?

 

COROAÇÃO DA VIRGEM

Há coisa de um ano estive ocupada com a manufactura de cerca de oitenta réplicas de azulejos de padrão do séc XVII, para colmatarem as lacunas que existiam no interior de uma pequena igreja na Louriceira e que na altura falei aqui.

Os trabalhos de conservação e restauro da igreja entretanto continuaram e fiquei agora a saber que, aquando da intervenção no revestimento azulejar, foram encontrados alguns azulejos figurativos que se encontravam assentes por aqui e por ali, no meio da padronagem e que depois de montados e organizados, vieram a revelar um registo votivo à Virgem Maria – o que faz sentido, uma vez que esta igreja ainda hoje é uma igreja de culto Mariano.

O painel  chegou aqui à oficina com dez azulejos em falta e segundo percebi, foi feita alguma investigação para se tentar encontrar alguma imagem antiga ou gravura na qual se conseguisse ver como seria o desenho original, a qual resultou em nada. A ideia de fazer azulejos lisos, sem desenho e dentro dos tons dos azulejos envolventes, foi posta de parte pela própria igreja, que alegou que sendo a mesma devota ao culto Mariano e estando o painel exposto, os crentes gostariam de rezar a uma imagem completa – o que para mim, apesar de não professar nenhuma religião, faz todo o sentido.

Decidi fazer o desenho o mais simples possível, tentando não inventar muito – ora fazendo simetrias, ora seguindo pormenores do desenho do azulejo anterior, ora dando continuidade a linhas e tons e manchas cromáticas; como se fosse possível saber o limite entre o inventar muito e o inventar pouco.

Adoro estes pequenos registos religiosos do séc. XVII, feitos com tanta ingenuidade por artesãos sem grandes noções de desenho, mas confesso que a coisa não foi totalmente fácil; por vezes não havia nenhum indício por onde me guiar, não existiam simetrias, o desenho não parecia fazer nenhum sentido e os azulejos envolventes não pareciam bater certo uns com os outros – várias vezes verifiquei as posições, mas estavam todas correctas. Nalguns pontos limitei-me apenas a prolongar um pouco as linhas de contorno existentes e assim as deixei ficar, sem saber o que fazer com elas.

Para não falar dos tons, claro – o manganês é muito instável e difícil de trabalhar e tenho pouca experiência na aplicação do verde cobre à pintura; já para não falar do vidrado branco do fundo, tão pouco branco.

Enfim, o desenho foi aprovado por parte da igreja e os azulejos foram pintados – alguns pormenores resultaram melhor do que outros; agora se calhar fazia-os doutra maneira, porque me parece que os originais não seriam bem assim; mas na verdade não faço ideia nenhuma de como seriam e todas as hipóteses poderiam ser sempre diferentes e esta até está razoável.

E agora recebi a fotografia do painel restaurado e já aplicado na parede; a ver se um dia destes consigo ir à Louriceira para visitar a Igreja Matriz.