O MOLDE

Sexta-feira acabei de modelar o protótipo da réplica do azulejo de Massarelos que irei produzir.

Demorei mais tempo do que estava à espera; nisto do modelar nunca sei bem se prefiro ir acrescentando o barro por camadas até adquirir o relevo pretendido ou se, pelo contrário, é melhor partir de um bloco inicial e ir removendo o material até chegar à forma desejada, de modo que vou fazendo uma mistura das duas técnicas; ora acrescento, ora removo e posso ficar nisto horas, sem avançar absolutamente nada, obcecada em tentar reproduzir o mais fielmente possível o motivo original e repetindo várias vezes para mim mesma “pronto, já está; agora os detalhes fazem-se no molde”, mas depois reparo num pormenor que não me parece bem e lá recomeça tudo – não direi infinitamente, porque nalguma altura tenho de terminar e sim, passar ao molde.

Hoje estive a fazê-lo. É igualmente viciante. É nesta fase que se executam os tais detalhes que falei há pouco e também os acabamentos finais. Aperfeiçoam-se relevos, avivam-se arestas, arredondam-se formas, alisa-se o fundo. Trabalha-se em negativo e com precisão e é preciso estar atento para não se fazer asneira, qualquer erro fica marcado no gesso. A tentação de se ficar ali a retocar, a retocar, é bastante grande, mas agora já não funciona o método de voltar a acrescentar material quando já se removeu demasiado. Ainda bem!

 

 

 

 

MASSARELOS E SACAVÉM

Às vezes – muitas vezes – acontecem-me coisas incríveis aqui na oficina.

Não sendo eu uma coleccionadora de azulejos, sinto-me uma privilegiada quando, completamente por acaso, me passam pelas mãos e ao mesmo tempo dois exemplares de azulejos tão característicos de duas das principais fábricas que funcionavam em pleno há cem anos e que estão agora ambas extintas – Massarelos, no Porto e Sacavém, em Lisboa; os dois grandes polos de produção industrial de cerâmica de então.

Tradicionalmente os azulejos eram produzidos manualmente, com a técnica de lastra, da qual se cortavam as placas com as dimensões e espessura pretendidas. Durante o séc. XIX, com a industrialização, os processos utilizados passaram a envolver máquinas a vapor e diferentes tipos de moldes; as fábricas do Porto que produziam azulejos relevados usavam moldes de madeira ou de gesso – Carvalhinho, Devesas e Massarelos. Em Lisboa, as fábricas de Sacavém e Desterro, usavam moldes de madeira ou de metal para produzir azulejos de meio-relevo.

Por uma feliz coincidência, foi-me pedido agora para fazer réplicas destes dois azulejos. Não tenho maquinaria e vou trabalhar à mão, o melhor que conseguir. Preocupa-me um pouco a sua produção, principalmente do de meio-relevo, mas cada coisa a seu tempo e para já, não vejo a hora de começar a modelar os protótipos e de fazer os moldes!