TESTES DE COR

Tenho andado atrapalhada a fazer testes de cor para passar à fase final da manufactura das 300 réplicas de azulejos em meio-relevo que me foram pedidas para revestir uma pequena fachada em Olhão.

As chacotas estão todas feitas e neste momento mais de metade está já cozida, sendo que as restantes estão ainda em fase de secagem, quase secas. De momento o que me preocupa – mentira; preocupou-me sempre, desde o início do trabalho -, é a fase da vidragem e não estou a falar apenas da obtenção das cores, que já de si também não são assim tão lineares; refiro-me sobretudo à técnica de vidragem, ao modo como deverei aplicar o vidrado sobre a chacota afim de conseguir uma camada vítrea transparente assim tão fluida, e que de certeza não será igual ao processo de fabrico original, visto que estou a falar de azulejos industriais, os quais estou a tentar reproduzir à mão, 300 unidades, um a um, o mais fielmente que conseguir.

Assim sendo, tenho já aqui testes para todos os gostos e feitios; cores mais vibrantes, cores menos vibrantes, vidrados aplicados à trincha, com pincel e com pera de borracha, por mergulho, por mergulho e acabamento a trincha; vidrados sobre vidrados, pigmentos por baixo de vidrados; enfim, uma parafernálea  de experiências que servem acima de tudo para criar expectativas e alguma frustração ao abrir o forno, até se ter uma outra ideia, que certamente irá resultar e então, começar tudo do novo.

Para dificultar a coisa tenho comigo apenas um exemplar, quer do padrão, quer do friso, o que me limita o trabalho, pois fico obcecada com a obtenção daquele resultado, tendo a certeza de que se tivesse mais originais comigo também eles variariam entre si.

Isto tudo para dizer que hoje fiz mais um teste que está agora a cozer e cujo resultado vejo amanhã – espero que seja o último, pois o prazo de entrega começa a apertar e tenho de avançar rapidamente para a produção.

 

 

BRANCO

Ando há alguns dias a adiantar já testes de cores variados, para duas ou três encomendas distintas que irei começar a executar daqui a um mês, quando voltar à oficina, depois de umas férias merecidas, sem pensar muito nisto – e nem em nada, para falar muito sinceramente. Gostaria de deixar esta parte já feita, porque depois tudo pode avançar mais rapidamente, mas às vezes sinto que estou esgotada e que o melhor seria parar já e depois voltar com a cabeça limpa, pronta a raciocinar e a ver as coisas com alguma clarividência, porque agora tenho tido algumas dificuldades.

Tenho andado à luta para conseguir engendrar um vidrado branco para fazer cerca de 250 réplicas de azulejos do séc XVIII, que, por serem brancos, parecem tão simples, mas a verdade é que já criei não sei quantas receitas para não sei quantas experiências de cores e nada – alguns resultados até têm bastante piada, pois não têm mesmo nada a haver com o procurado e é sempre uma surpresa abrir o forno.

Hoje, finalmente, ao fim de três dias consecutivos a fazer receitas novas, todas falhadas, tirei da mufla de experiências duas ou três amostras com tons muito semelhantes àquilo que pretendo, mas ainda não estou bem convencida. Tenho as minhas suspeitas de que preciso de um óxido que não há, nem nunca houve, aqui na oficina…

 

 

 

 

CRUA

Acabei de vidrar a primeira amostra das réplicas de frisos em relevo que estou a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Confesso que, de uma forma geral, estou sempre pouco confiante com a questão dos vidrados e em casos como este ainda mais, uma vez que os mesmos são aplicados com trincha, coisa a que não estou habituada e fico sempre um pouco angustiada com o trabalho, pois não consigo ter noção da espessura das camadas que apliquei, – se demasiado finas, se demasiado espessas. E em ambos os casos temos defeitos de vidrado depois da cozedura.

Enfim, vai ao forno esta noite; resultados, agora, só na segunda-feira. Vou passar o fim-de-semana a fazer figas.

 

 

 

CERCADURA

 

Comecei finalmente a preparar-me para pintar uma série de réplicas variadas de azulejos do séc XVII, para as quais me foram pedidas chacotas não só com as mesmas medidas, como também com as mesmas espessuras dos azulejos originais – cerca de 1,5cm ou até um pouco mais,  e depois escacilhadas, à boa maneira dos azulejos tradicionais portugueses desta época.

As experiências de cor estão feitas, as de vidrados também – eles próprios variam um do outro. Vou começar por estes azulejos de cercadura, com anjos virados para a esquerda e para a direita, que são os meus favoritos.

 

 

BISELADOS

Às vezes as coisas mais simples acabam por se revelar as mais complicadas. Tenho andado aqui às voltas com experiências de vidrados para tentar encontrar a cor de mel mais parecida – já não digo igual – à do azulejo biselado que me entregaram a fim de eu fazer algumas réplicas para um pequeno edifício na Ajuda.

A coisa não tem sido fácil, mas felizmente ocorreu-me pedir uma fotografia da fachada em questão e – tal como já devia estar cansada de saber – os azulejos originais variam de tons quase tanto como os meus, mais a mais tratando-se de vidrados transparentes coloridos com óxidos metálicos.

Assim sendo, e em boa hora, dou por terminada esta tarefa; a continuar assim, em breve arriscava-me a ter mais experiências de cor do que as cerca de quarenta unidades que preciso de fazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SÉC. XVII

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Comecei agora a trabalhar numa nova encomenda: desta vez trata-se de cerca de 150 réplicas de azulejos de padrão 4×4 do séc. XVII  – o meu preferido  -, que irão colmatar as lacunas existentes no Tanque Grande do Parque de Monserrate, em Sintra.

ARESTA-VIVA

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Na quinta-feira passada fui contactada para fazer algumas réplicas de azulejos para o Miradouro de Sta. Luzia, em Lisboa – o que veio mesmo a calhar, uma vez que estava sem trabalho de novo.

Tratam-se de alguns azulejos de aresta-viva com a esfera armilar, algumas figuras avulso 15x15cm e ainda meia-dúzia de azulejos figurativos manuais para colmatarem as lacunas da fonte, dos bancos e do painel com a vista de Lisboa existentes lá no Miradouro.

O que não dá jeito nenhum é o prazo curtíssimo que tenho para entregar principalmente as esferas armilares e as figuras avulso – dia 16 deste mês convinha que estivessem na parede e não gosto de começar um trabalho já em stress com o prazo.

Apesar de não serem muitas unidades de cada tipologia, preocupam-me sobretudo  os de aresta-viva, que para além da manufactura do molde, ainda há todo o processo  de execução de chacotas, que têm de secar controlada e lentamente o mais rápido possível, para que não empenem nem se partam durante a primeira cozedura e depois ainda a vidragem e a pintura e depois ainda a segunda cozedura.

Hoje tirei do forno as primeiras experiências de cores de vidrados; para já, parece-me que estou no bom caminho. Mas estou a achar isto tudo muito apertado.

ARCO DO ALHAMBRA

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Entreguei já todas as réplicas dos azulejos relevados que me encomendaram para o Arco do Alhambra – 10 “Parras”, 10 “Folhas de Videira”e 15 “Panóplias Militares” – que irão colmatar lacunas e substituir azulejos em franco mau estado de conservação existentes na superfície parietal.

A encomenda foi-me feita no início de Dezembro e ainda assim consegui fazê-la em tempo record, tendo em conta que para cada exemplar teve de ser modelado um protótipo inicial, fazer-se um molde e tirar-se mais do que o número de azulejos precisos; isto durante estes dois últimos meses em que a humidade e o frio aqui na oficina estiveram nos seus limites máximos e toda a secagem foi bastante complicada.

Depois foram as experiências de cor, inúmeros testes de vidrados base e tintas de alto fogo, receitas, referências e fornadas, que se foram acumulando aqui na bancada e que agora ainda tenho de inventariar. E a seguir vidrar e pintar cada um deles, com calma para o resultado ficar bem.

Anteontem entreguei as réplicas ao meu colega Ivo, que tem estado a fazer o restauro de todo o conjunto azulejar e que as vai assentar na parede – uma semana antes do prazo que eu tinha previsto, pois assim mo pediram de repente. Não fiquei totalmente segura quanto aos verdes, estava ainda a tirar conclusões quanto ao tom, à consistência da tinta e à temperatura de cozedura; ainda me faltou mais um passo, que já não tive tempo de o fazer. De qualquer modo os verdes originais variam bastante de tonalidades; basta pensar que uma produção daquela quantidade era cozida em fornos a lenha e sujeita a diferentes temperaturas entre si.

Estou curiosa para ver o resultado.

AZUL E BRANCO

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Comecei hoje mais uma nova encomenda, desta vez cerca de vinte e cinco réplicas de azulejos do séc XVIII – coisa pouca, mas melhor do que nada. Para já, experiências de cor; vidrados base e tintas de alto fogo: três brancos diferentes e seis tipos de azul. Amanhã vão a cozer a 1000º e se nenhum servir, tenho de fazer tudo de novo.

ÓXIDO DE COBRE

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Com o pretexto de encontrar um vidrado de baixo fogo verde para vidrar um azulejo de uma encomenda, resolvi fazer umas experiências de cores partindo de três vidrados, transparentes, com composições diferentes. O princípio era o mais básico para quem começa com estas andanças da cerâmica: pegar em cada um desses vidrados base e acrescentar óxido de cobre a cada um deles, em percentagens diferentes. Assim fiz e fiquei com três receitas diferentes e com três copinhos com três vidrados diferentes; que não seriam usados para mais nada, arriscando-se a irem todos para o lixo – que nesta coisa das receitas de vidrados temos sempre de contemplar o factor desperdício.

Uma vez que eu sou pouco dada a desperdícios e, aproveitando também o facto de ter de fazer uma fornada apenas para aquelas experiências de cor, resolvi juntar a cada copo um bocadinho de óxido de cobalto – só para ver o que é que dava. E depois, já agora, uma pitada de óxido de estanho. E de zinco. E para finalizar, misturei as receitas todas umas com as outras.

Foram estes os resultados. Uns aproveitam-se e são para repetir; outros são para esquecer e outros ainda são a base para novas receitas. Adoro isto!