MEIO-RELEVO

Acabei ontem a produção das réplicas de azulejos e frisos em meio-relevo, da antiga Fábrica de Sacavém, que me foram pedidas para o revestimento de uma pequena fachada em Olhão – 200 azulejos e 100 frisos, feitos de raiz, totalmente à mão, um a um.

A execução de um protótipo foi bastante complexa e teve de ser executada através de um positivo e de um negativo e não sei como, porque nunca me aconteceu, enganei-me várias vezes sempre no mesmo ponto e por várias vezes troquei côncavos com convexos e convexos com côncavos  e por várias vezes tive de repetir o molde até chegar a um azulejo com um relevo semelhante ao dos originais.

A manufactura de chacotas foi morosa, o barro que utilizei seca facilmente e é difícil de amassar e mais uma vez desejei ter uma pequena fieira que me ajudasse nesta tarefa. Cada unidade foi prensada manualmente e a sua secagem foi vigiada com cuidado, a fim de minimizar o mais possível os empenos naturais deste processo de fabrico e de aproximar o seu aspecto ao das industriais, completamente planas, impecáveis.

Os vidrados também tiveram o seu quê. Para além dos tons, que não foram fáceis de encontrar e estando a falar de vidrados transparentes, altamente fundíveis, aplicados sobre um relevo, convém que integrem na sua composição um elemento estabilizante que lhes aumente a viscosidade de modo a que se mantenham fundidos sobre a peça sem escorrer. Foram realizados inúmeros testes em busca dos tons exactos e da consistência perfeita; inúmera esperança e desilusão, sendo que com esta última acrescenta-se ainda dois dias a descontar no prazo de entrega da encomenda.

Depois, a vidragem. Os vidrados foram aplicados manualmente, com pêra de borracha, um a um, tom por tom; primeiro o fundo, depois os relevos, com cuidado para não borrar, raspando ora aqui, ora ali; foi pela via mais difícil, de certeza que não foi assim que fizeram isto originalmente, mas na verdade não faço a mínima ideia de como é que fizeram isto originalmente, sendo um processo industrial, em que não se perdia tempo com estes preciosismos.

Ontem cozi os últimos 60 azulejos que faltavam, todos aqueles que precisaram de levar retoques e cozerem uma segunda vez. Amanhã saem do forno, espero que esteja tudo bem. Não estão perfeitos, mas não consegui melhor. Agora quero vê-los na parede.

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CORAÇÃO MASAI

 

Coisas giras que às vezes tenho de fazer aqui na oficina: desta feita, um pequeno painel de azulejos em forma de coração, encomendado especificamente para oferecer num casamento em que a noiva é portuguesa e o noivo é queniano.

O painel exprime a união destas duas culturas, representadas pelos azulejos portugueses e pelas coloridas contas Masai, existentes nos adornos usados por este povo semi-nómada, localizado no Quénia e norte da Tanzânia. Estas peças carregam um grande simbolismo social, não só pelo tipo e forma de ornamentos, como também pelas cores neles utilizadas, onde cada uma tem o seu significado:

Preto: simboliza o próprio povo e as lutas que tem de travar;

Vermelho: é o sangue, a bravura e união;

Branco: representa a paz, a saúde e a pureza;

Amarelo: Sol, fertilidade e crescimento;

Azul: indica o céu e a energia,

Laranja: significa a amizade, a generosidade e a cordialidade.

O painel já seguiu viagem para o Quénia e agora estou muito curiosa para ver a fotografia da reacção dos noivos ao receberem-no no próximo domingo.

 

 

LASTRA

 

Comecei a trabalhar num projecto cerâmico aliciante e bastante diferente daqueles a que estou habituada, o qual aceitei imediatamente quando fui contactada – a manufactura de cinco candeeiros/luminárias/apliques em terracota, para as paredes de um pátio interior de um hotel em Lisboa.

De acordo com o desenho apresentado, serão executados quatro modelos diferentes, todos semelhantes em comprimento e largura, mas distintos na forma e na altura das superfícies frontais – um deles será repetido.

A manufactura não é complicada, mas apresenta alguns requisitos técnicos que convém obedecer; cada modelo será executado com lastras de dimensões consideráveis, as quais têm de ser cortadas tendo em atenção a percentagem de retracção do barro a fim de, no final, se respeitar o mais possível as medidas apresentadas no projecto; as lastras não devem ter uma grande espessura para não conferir demasiado peso a cada peça, mas por outro lado, também não podem ser finas demais, pois terão pouca estrutura e maior tendência a empenar durante a secagem e a cozedura; a montagem das lastras deve ser executada quando as mesmas apresentarem já um certo grau de secagem, caso contrário e, com estas dimensões, estarão moles demais para se poder manusear sem que haja deformação imediata; por último, a secagem deve ser feita muuuito lentamente e apesar desta humidade e frio aqui na oficina e também de uma certa urgência no prazo de entrega das peças, ainda assim vou ter de tapá-las com plástico durante uns dias para tentar evitar empenos, deformações e fendas.

Depois fica a faltar a cozedura, mas cada coisa a seu tempo.

 

 

 

VERDE COBRE

Acabaram de sair do forno os primeiros azulejos que ando a fazer para a nova cafetaria do palácio de Sintra.

São 150 unidades de azulejos verdes, executados sobre chacotas manuais com 14x14cm, baseados nos que existem no Pátio do Leão e tal como estes, apresentam várias tonalidades de verde, resultantes da vidragem ser feita à mão com vidrado transparente e óxido de cobre.

 

 

BEDANKT VOOR ALLES

Entre um ou outro projecto maior, aproveito para produzir as pequenas encomendas que de vez em quando alguém me faz – a maioria das quais bastante simpáticas e engraçadas de fazer. Hoje estive a pintar estes três barcos que irão rumar à Holanda, para que a Miriam os ofereça aos seus três orientadores holandeses no dia 10 de Novembro, aquando da defesa da sua tese de doutoramento.

Bedankt Miriam; obrigada e boa sorte!

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PASSO DO TERREIRINHO

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Aqui há uns tempos largos fui contactada para apresentar orçamento para a manufactura de réplicas de azulejos para uma pequena capela em Lisboa, que só abre uma vez por ano para ser visitada pelo Senhor dos Passos, que faz aqui uma das suas paragens durante a  procissão de 12 de Março.

Este passo é lindo; todo revestido com azulejos do séc.XVIII pintados a manganês e branco – invulgares q.b., mas feitos especificamente para aqui, de acordo com a cor convencional roxa do Senhor dos Passos -, era uma pena estar em tão mau estado de conservação.

As obras arrancaram no início deste ano e como sempre, o passo será aberto para a procissão já no próximo mês – mas desta vez completamente recuperado e com os azulejos de volta à parede.

AZUL E BRANCO

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Comecei hoje mais uma nova encomenda, desta vez cerca de vinte e cinco réplicas de azulejos do séc XVIII – coisa pouca, mas melhor do que nada. Para já, experiências de cor; vidrados base e tintas de alto fogo: três brancos diferentes e seis tipos de azul. Amanhã vão a cozer a 1000º e se nenhum servir, tenho de fazer tudo de novo.

PARALELO

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Tenho andado a tentar conciliar em paralelo toda a produção cerâmica que quero fazer – a azulejaria contemporânea e as peças tridimensionais. O objectivo é avançar com tudo ao mesmo tempo, lenta e calmamente, de modo a que nenhuma das tarefas se torne cansativa ou repetitiva – mas não está a ser fácil.

Primeiro, como sempre, quero ver tudo pronto em três tempos – como se tivesse algum tipo de encomenda de alguma coisa!; segundo, estou a trabalhar com dois materiais totalmente diferentes e incompatíveis – faiança e barro refractário; que é como quem diz, barro branco e barro refractário, no mesmo espaço e ao mesmo tempo: algum deles acaba por ser contaminado pelo outro e, claro, é o branco o mais afectado. Ainda não consegui perceber qual é a melhor metodologia, se trabalhar um dia numa coisa e outro na outra; se fazer de manhã  os azulejos e à tarde as taças e trocar no dia seguinte; se fazer dois dias seguidos cada uma delas. De qualquer modo, e para já, parece-me já ter conseguido arranjar um método de trabalho que funciona e também separar as áreas tanto de produção como de secagem – todo este processo tem sido uma aprendizagem bastante útil no que toca ao dia a dia de uma produção cerâmica oficinal e de todas as tarefas que lhe são inerentes e que vão muito além da simples criação artística. E todas têm de ser contabilizadas.

ESTADO LASTIMÁVEL

Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.

Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.

Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.

MUFLAS CERÂMICAS

Estou mais do que decidida a comprar um forno para experiências – e vai ser em breve. Tenho andado às voltas com as cores para as réplicas do nº 11 a Sta. Catarina e já vou para a terceira fornada (e espero que última) no nosso forno pequeno – que assim é chamado apenas porque temos um maior, se não, seria simplesmente «o forno» – e, lá por ser pequeno, sempre tem capacidade para cozer sessenta azulejos de cada vez e tem andado a fazê-lo apenas com quatro ou cinco; ou seja, quase vazio. Um desperdício de energia, que me faz impressão, para além de me sair do bolso. É verdade que aqui na oficina temos contador bi-horário e que aproveito sempre para fazer as fornadas durante a noite, mas aí levanta-se o problema de não conseguir ver os resultados logo na manhã seguinte, o que vai atrasando o trabalho. Portanto; ao fim de alguns anos a pensar nisto, agora é que é: vou comprar uma pequena mufla de experiências e de preferência, que atinja os 1300º. Já que se investe, há que ter alguma visão.