PASSO DO TERREIRINHO

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Aqui há uns tempos largos fui contactada para apresentar orçamento para a manufactura de réplicas de azulejos para uma pequena capela em Lisboa, que só abre uma vez por ano para ser visitada pelo Senhor dos Passos, que faz aqui uma das suas paragens durante a  procissão de 12 de Março.

Este passo é lindo; todo revestido com azulejos do séc.XVIII pintados a manganês e branco – invulgares q.b., mas feitos especificamente para aqui, de acordo com a cor convencional roxa do Senhor dos Passos -, era uma pena estar em tão mau estado de conservação.

As obras arrancaram no início deste ano e como sempre, o passo será aberto para a procissão já no próximo mês – mas desta vez completamente recuperado e com os azulejos de volta à parede.

AZUL E BRANCO

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Comecei hoje mais uma nova encomenda, desta vez cerca de vinte e cinco réplicas de azulejos do séc XVIII – coisa pouca, mas melhor do que nada. Para já, experiências de cor; vidrados base e tintas de alto fogo: três brancos diferentes e seis tipos de azul. Amanhã vão a cozer a 1000º e se nenhum servir, tenho de fazer tudo de novo.

PARALELO

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Tenho andado a tentar conciliar em paralelo toda a produção cerâmica que quero fazer – a azulejaria contemporânea e as peças tridimensionais. O objectivo é avançar com tudo ao mesmo tempo, lenta e calmamente, de modo a que nenhuma das tarefas se torne cansativa ou repetitiva – mas não está a ser fácil.

Primeiro, como sempre, quero ver tudo pronto em três tempos – como se tivesse algum tipo de encomenda de alguma coisa!; segundo, estou a trabalhar com dois materiais totalmente diferentes e incompatíveis – faiança e barro refractário; que é como quem diz, barro branco e barro refractário, no mesmo espaço e ao mesmo tempo: algum deles acaba por ser contaminado pelo outro e, claro, é o branco o mais afectado. Ainda não consegui perceber qual é a melhor metodologia, se trabalhar um dia numa coisa e outro na outra; se fazer de manhã  os azulejos e à tarde as taças e trocar no dia seguinte; se fazer dois dias seguidos cada uma delas. De qualquer modo, e para já, parece-me já ter conseguido arranjar um método de trabalho que funciona e também separar as áreas tanto de produção como de secagem – todo este processo tem sido uma aprendizagem bastante útil no que toca ao dia a dia de uma produção cerâmica oficinal e de todas as tarefas que lhe são inerentes e que vão muito além da simples criação artística. E todas têm de ser contabilizadas.

ESTADO LASTIMÁVEL

Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.

Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.

Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.

MUFLAS CERÂMICAS

Estou mais do que decidida a comprar um forno para experiências – e vai ser em breve. Tenho andado às voltas com as cores para as réplicas do nº 11 a Sta. Catarina e já vou para a terceira fornada (e espero que última) no nosso forno pequeno – que assim é chamado apenas porque temos um maior, se não, seria simplesmente «o forno» – e, lá por ser pequeno, sempre tem capacidade para cozer sessenta azulejos de cada vez e tem andado a fazê-lo apenas com quatro ou cinco; ou seja, quase vazio. Um desperdício de energia, que me faz impressão, para além de me sair do bolso. É verdade que aqui na oficina temos contador bi-horário e que aproveito sempre para fazer as fornadas durante a noite, mas aí levanta-se o problema de não conseguir ver os resultados logo na manhã seguinte, o que vai atrasando o trabalho. Portanto; ao fim de alguns anos a pensar nisto, agora é que é: vou comprar uma pequena mufla de experiências e de preferência, que atinja os 1300º. Já que se investe, há que ter alguma visão.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

EM STAND BY…

Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.

No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.

No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.