Ref. nº 18

E a propósito destes azulejos em meio-relevo lindos, os quais estou agora a fazer amostras para uma eventual produção de réplicas, recebi esta informação da Divisão de Cultura / Unidade de Património e Museologia da Câmara Municipal de Loures, município onde se encontra o Museu de Cerâmica de Sacavém:

“O padrão em destaque, com uma decoração em semi-relevo, surge no catálogo de “Preços Correntes da Real Fábrica de Louça em Sacavém – Azulejo – Gilman & Commandita / Depósito Geral Rua da Prata, 126 a 132 – Lisboa”, datado de Agosto de 1910, com a referência N.º 18 e as medidas de 15,5cm x 15,5cm. Estava disponível em várias cores de vidrado, por sua vez referenciadas por letras, como por exemplo um dos tons em verde tinha o número 18-D e o tom de creme o número 18-G. Este catálogo reunia e compilava, numa só publicação, todos os padrões produzidos e comercializados pela Fábrica de Sacavém, anteriormente disponibilizados aos comerciantes através de folhas soltas com os desenhos propostos para cada aplicação, tais como revestimento de fachadas, de espaços interiores, arquitraves, entre outras.”

DESAFIO

Estou bastante satisfeita. Chegou-me às mãos, mais uma vez, um azulejo em meio-relevo, da Fábrica de Sacavém, proveniente do átrio e escadaria de um edifício construído em 1914 no Alto de Sto. Amaro, em Lisboa. Ao que parece, o meu trabalho foi-lhes recomendado – obrigada! – e é para eu ver se consigo fazer algumas réplicas que colmatem as lacunas existentes no dito edifício, o qual se encontra em obras de reabilitação.

Disse que não sei se consigo, mas que posso experimentar, para já, fazer umas amostras, para ver se se integram ou não no conjunto azulejar e que depois, face aos resultados obtidos, logo se verá se se avança para a produção ou não.

Tal como aconteceu aqui e aqui, em que tive de produzir manualmente réplicas de azulejos industriais, parece-me que o mais difícil neste caso não se trata da gravação de um modelo, nem da execução do seu molde; o maior desafio para já e à primeira vista, será obter um tom de branco aproximado ao original, o que tem o seu quê de complexo, uma vez que não estamos a falar de um vidrado opaco, mas sim de um transparente, e esta coloração dever-se apenas ao reavivar do tom da pasta utilizada – neste caso, pó de pedra.

Mas vamos com calma; cada coisa a seu tempo. Para já, a modelação de um protótipo. E mal posso esperar por começar.

213

Vidrar e limpar vidrados. 213 vezes até agora. Colocar a primeira estampilha e pintar o laranja, para começar. Ajustar a segunda estampilha sobre a primeira e pintar o rosa. Continuar com o rosa e pintar a terceira estampilha. Passar ao azul; acertar a quarta estampilha com as anteriores e pintar. Seguir para a quinta estampilha; conferir e pintar, ainda de azul. 213 vezes até agora. Verde: posicionar a sexta estampilha e pintar. Permanecer no verde para pintar a sétima estampilha. Finalmente o preto, quase a acabar; rectificar a oitava estampilha com todas as precedentes e pintar. Concluir com a nona estampilha, pintar igualmente de preto. 213 vezes até agora. Enfornar. Desenfornar. Encaixotar.

Recomeçar.

MOSAICO

E um ano depois do previsto inicialmente, eis que recebo agora luz verde para arrancar com a manufactura de 500 réplicas destes azulejos de fachada para colmatarem as lacunas existentes num edifício de rendimento em Lisboa.

Tratam-se de azulejos industriais de estampilha, com cento e poucos anos, produzidos na extinta Fábrica de Sacavém, em Lisboa, os quais podem ser encontrados igualmente a revestir algumas fachadas no norte do país, uma vez que foram executados também pela desaparecida Fábrica das Devezas, em Vila Nova de Gaia.

Curiosamente e graças ao meu amigo Fábio Carvalho, autor do blog Azulejos Antigos no Rio de Janeiro , que me mostrou o livro Las Azulejerías de La Habana, Cerámica Arquitectónica Española en América, onde este padrão aparece apelidado como “Mosaico”, descobri que estes azulejos têm influência espanhola – em finais do séc. XIX foram produzidos pelo menos em três fábricas na zona da Valência – e podem ser encontrados como revestimento cerâmico exterior não só em Portugal e Espanha mas também em Cuba, chegando até mesmo a haver um exemplar em exposição no Museu do Azulejo de Montevideu, no Uruguai.

TESTES DE COR

Tenho andado atrapalhada a fazer testes de cor para passar à fase final da manufactura das 300 réplicas de azulejos em meio-relevo que me foram pedidas para revestir uma pequena fachada em Olhão.

As chacotas estão todas feitas e neste momento mais de metade está já cozida, sendo que as restantes estão ainda em fase de secagem, quase secas. De momento o que me preocupa – mentira; preocupou-me sempre, desde o início do trabalho -, é a fase da vidragem e não estou a falar apenas da obtenção das cores, que já de si também não são assim tão lineares; refiro-me sobretudo à técnica de vidragem, ao modo como deverei aplicar o vidrado sobre a chacota afim de conseguir uma camada vítrea transparente assim tão fluida, e que de certeza não será igual ao processo de fabrico original, visto que estou a falar de azulejos industriais, os quais estou a tentar reproduzir à mão, 300 unidades, um a um, o mais fielmente que conseguir.

Assim sendo, tenho já aqui testes para todos os gostos e feitios; cores mais vibrantes, cores menos vibrantes, vidrados aplicados à trincha, com pincel e com pera de borracha, por mergulho, por mergulho e acabamento a trincha; vidrados sobre vidrados, pigmentos por baixo de vidrados; enfim, uma parafernálea  de experiências que servem acima de tudo para criar expectativas e alguma frustração ao abrir o forno, até se ter uma outra ideia, que certamente irá resultar e então, começar tudo do novo.

Para dificultar a coisa tenho comigo apenas um exemplar, quer do padrão, quer do friso, o que me limita o trabalho, pois fico obcecada com a obtenção daquele resultado, tendo a certeza de que se tivesse mais originais comigo também eles variariam entre si.

Isto tudo para dizer que hoje fiz mais um teste que está agora a cozer e cujo resultado vejo amanhã – espero que seja o último, pois o prazo de entrega começa a apertar e tenho de avançar rapidamente para a produção.

 

 

RELEVADOS

Ainda na série de réplicas de azulejos de várias tipologias que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra, foram-me pedidos também dois exemplares destes frisos com um motivo vegetalista em relevo.

Os azulejos originais encontram-se em mau estado de conservação, apresentando não só pequenas e médias lacunas de corpo cerâmico, como também falhas de vidrado de grandes dimensões, algumas das quais quase na totalidade da superfície. Para esta situação contribui em larga escala o facto destes azulejos se encontrarem colocados num pátio exterior do palácio há mais de 500 anos e como se não bastasse, quando falamos de exterior, neste caso, estamos a referir-nos a um exterior… em Sintra.

Esta introdução toda é só para dizer que tive alguma dificuldade com a manufactura destes frisos; não tive nenhum azulejo original comigo aqui na oficina por onde me pudesse basear nem recorri a nenhum molde em silicone para confirmar o relevo, de modo que tive que me guiar pelas medidas que tirei quando lá fui ao local e modelar o protótipo em barro através das fotografias tiradas estrategicamente de vários ângulos; sendo que os azulejos originais, que parecem todos iguais, são na verdade todos diferentes  e que as falhas de vidrado e as pequenas lacunas de corpo cerâmico existentes não ajudaram a reproduzir, assim a olho, uma peça com estas características.

Nestas condições, estes exemplares foram a melhor reprodução que consegui fazer – têm um ar super-novo, mas se os deixarem no pátio lá fora por algum tempo, acho que rapidamente acabam por ficar mais parecidos com os originais.

 

 

 

 

COROAÇÃO DA VIRGEM

Há coisa de um ano estive ocupada com a manufactura de cerca de oitenta réplicas de azulejos de padrão do séc XVII, para colmatarem as lacunas que existiam no interior de uma pequena igreja na Louriceira e que na altura falei aqui.

Os trabalhos de conservação e restauro da igreja entretanto continuaram e fiquei agora a saber que, aquando da intervenção no revestimento azulejar, foram encontrados alguns azulejos figurativos que se encontravam assentes por aqui e por ali, no meio da padronagem e que depois de montados e organizados, vieram a revelar um registo votivo à Virgem Maria – o que faz sentido, uma vez que esta igreja ainda hoje é uma igreja de culto Mariano.

O painel  chegou aqui à oficina com dez azulejos em falta e segundo percebi, foi feita alguma investigação para se tentar encontrar alguma imagem antiga ou gravura na qual se conseguisse ver como seria o desenho original, a qual resultou em nada. A ideia de fazer azulejos lisos, sem desenho e dentro dos tons dos azulejos envolventes, foi posta de parte pela própria igreja, que alegou que sendo a mesma devota ao culto Mariano e estando o painel exposto, os crentes gostariam de rezar a uma imagem completa – o que para mim, apesar de não professar nenhuma religião, faz todo o sentido.

Decidi fazer o desenho o mais simples possível, tentando não inventar muito – ora fazendo simetrias, ora seguindo pormenores do desenho do azulejo anterior, ora dando continuidade a linhas e tons e manchas cromáticas; como se fosse possível saber o limite entre o inventar muito e o inventar pouco.

Adoro estes pequenos registos religiosos do séc. XVII, feitos com tanta ingenuidade por artesãos sem grandes noções de desenho, mas confesso que a coisa não foi totalmente fácil; por vezes não havia nenhum indício por onde me guiar, não existiam simetrias, o desenho não parecia fazer nenhum sentido e os azulejos envolventes não pareciam bater certo uns com os outros – várias vezes verifiquei as posições, mas estavam todas correctas. Nalguns pontos limitei-me apenas a prolongar um pouco as linhas de contorno existentes e assim as deixei ficar, sem saber o que fazer com elas.

Para não falar dos tons, claro – o manganês é muito instável e difícil de trabalhar e tenho pouca experiência na aplicação do verde cobre à pintura; já para não falar do vidrado branco do fundo, tão pouco branco.

Enfim, o desenho foi aprovado por parte da igreja e os azulejos foram pintados – alguns pormenores resultaram melhor do que outros; agora se calhar fazia-os doutra maneira, porque me parece que os originais não seriam bem assim; mas na verdade não faço ideia nenhuma de como seriam e todas as hipóteses poderiam ser sempre diferentes e esta até está razoável.

E agora recebi a fotografia do painel restaurado e já aplicado na parede; a ver se um dia destes consigo ir à Louriceira para visitar a Igreja Matriz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TESTES DE COR

De volta à oficina e às mãos na massa depois de uma estada fora para banhos e limpeza da cabeça.

Para já, a rentrée coincide com um novo projecto – manufactura de réplicas deste azulejo de padrão e respectivos frisos, cerca de 200 unidades no total que irão colmatar as lacunas existentes na fachada de um edifício em Setúbal. As estampilhas já estão cortadas e os primeiros testes de cor, acabados de pintar, vão hoje para o forno.

PALETA DE CORES

Acabei hoje a intervenção que fiz no Passo do Terreirinho; essencialmente, execução de cerca de 120 réplicas de azulejos do séc. XVIII, pintados a manganês e branco, para colmatarem as lacunas dos que foram roubados ou vandalizados e acompanhamento do seu assentamento na parede.

Aproveitando a deixa e já que por ali estava, não resisti a fazer a integração cromática de alguns preenchimentos de uma ou outra falha de vidrado, de maior dimensão, que o ladrilhador tapou quando betumou as juntas e que de repente saltavam muito à vista – preciosismos de quem trabalha nesta área do restauro, mas assim a capela fica mais bonita para receber a procissão que vai lá passar já no próximo domingo.

 

RESTAURADAS

2016-07-29 11.32.06 2016-07-29 11.36.38 2016-07-29 11.40.46 2016-07-29 11.43.53

Tal como pretendia, acabei o mês de Julho com a entrega das placas cerâmicas que estive a restaurar para o Goethe-Institut de Lisboa.

Subestimei um pouco o estado de conservação de cada uma – múltiplas fracturas – e pensei que demorasse menos tempo com cada uma, mas enfim; acabei-as e entreguei-as no prazo previsto, ainda antes de tirar uns dias para descansar antes de iniciar o trabalho no próximo projecto que se avizinha e que convém começar o quanto antes.

PLACA 4 PLACA 3

PLACA 2 PLACA 1