POSITIVO

Hoje comecei a fazer o protótipo do azulejo em meio-relevo que tenho de reproduzir para uma pequena fachada de uma casa em Olhão.

Das outras vezes que fiz protótipos de azulejos deste tipo, optei por gravar os motivos directamente no gesso e trabalhar em negativo – técnica que exige maior atenção para não se trocarem os côncavos com os convexos, mas que permite trabalhar com mais rigor e precisão.

Desta vez, não sei porquê, resolvi começar por fazer o positivo, que é o que à partida parece ser o mais lógico. Tive de cortar a placa de barro já há alguns dias, para que hoje pudesse estar em ponto de couro, aquela fase da secagem em que a peça apresenta a consistência adequada a poder-se trabalhar com precisão, sem se deformar, e passei o dia a escavar cuidadosamente todo o fundo à volta dos motivos até conseguir que estes ganhassem alguma volumetria – o tal meio-relevo.

 

 

O MOLDE

Sexta-feira acabei de modelar o protótipo da réplica do azulejo de Massarelos que irei produzir.

Demorei mais tempo do que estava à espera; nisto do modelar nunca sei bem se prefiro ir acrescentando o barro por camadas até adquirir o relevo pretendido ou se, pelo contrário, é melhor partir de um bloco inicial e ir removendo o material até chegar à forma desejada, de modo que vou fazendo uma mistura das duas técnicas; ora acrescento, ora removo e posso ficar nisto horas, sem avançar absolutamente nada, obcecada em tentar reproduzir o mais fielmente possível o motivo original e repetindo várias vezes para mim mesma “pronto, já está; agora os detalhes fazem-se no molde”, mas depois reparo num pormenor que não me parece bem e lá recomeça tudo – não direi infinitamente, porque nalguma altura tenho de terminar e sim, passar ao molde.

Hoje estive a fazê-lo. É igualmente viciante. É nesta fase que se executam os tais detalhes que falei há pouco e também os acabamentos finais. Aperfeiçoam-se relevos, avivam-se arestas, arredondam-se formas, alisa-se o fundo. Trabalha-se em negativo e com precisão e é preciso estar atento para não se fazer asneira, qualquer erro fica marcado no gesso. A tentação de se ficar ali a retocar, a retocar, é bastante grande, mas agora já não funciona o método de voltar a acrescentar material quando já se removeu demasiado. Ainda bem!

 

 

 

 

MASSARELOS E SACAVÉM

Às vezes – muitas vezes – acontecem-me coisas incríveis aqui na oficina.

Não sendo eu uma coleccionadora de azulejos, sinto-me uma privilegiada quando, completamente por acaso, me passam pelas mãos e ao mesmo tempo dois exemplares de azulejos tão característicos de duas das principais fábricas que funcionavam em pleno há cem anos e que estão agora ambas extintas – Massarelos, no Porto e Sacavém, em Lisboa; os dois grandes polos de produção industrial de cerâmica de então.

Tradicionalmente os azulejos eram produzidos manualmente, com a técnica de lastra, da qual se cortavam as placas com as dimensões e espessura pretendidas. Durante o séc. XIX, com a industrialização, os processos utilizados passaram a envolver máquinas a vapor e diferentes tipos de moldes; as fábricas do Porto que produziam azulejos relevados usavam moldes de madeira ou de gesso – Carvalhinho, Devesas e Massarelos. Em Lisboa, as fábricas de Sacavém e Desterro, usavam moldes de madeira ou de metal para produzir azulejos de meio-relevo.

Por uma feliz coincidência, foi-me pedido agora para fazer réplicas destes dois azulejos. Não tenho maquinaria e vou trabalhar à mão, o melhor que conseguir. Preocupa-me um pouco a sua produção, principalmente do de meio-relevo, mas cada coisa a seu tempo e para já, não vejo a hora de começar a modelar os protótipos e de fazer os moldes!

 

 

 

ESTAÇÃO DE AVEIRO

Comecei o ano a pintar 24 réplicas de azulejos para colmatarem as lacunas existentes nos revestimentos das floreiras das janelas da antiga estação de comboios de Aveiro.

O conjunto azulejar desta estação, datado de 1916 e produzido na extinta Fábrica de Louça da Fonte Nova, é composto por 28 painéis de azulejos policromos (azuis e amarelos), da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto, os quais representam cenas ferroviárias, paisagens naturais, figuras populares e actividades tradicionais ou monumentos desta região.

Para além destes painéis figurativos, a estação encontra-se ainda decorada do chão até ao telhado, quer na fachada exterior, quer na fachada que dá para o cais, com uma série de azulejos distribuídos por pequenas cartelas, molduras recortadas e revestimento das floreiras das janelas do andar superior, o que faz com que todo este conjunto seja considerado um prodígio decorativo – e que agora está a ser restaurado.

2020

Acabei o ano atarefada e comecei 2020 também atarefada.

Os projectos têm surgido e apesar de eu considerar que não há trabalhos mais importantes do que outros, a verdade é que alguns acabam por se impor pelo seu tamanho ou pelos prazos apertados que gosto de cumprir.

Isto para dizer que finalmente consegui reciclar todo o barro seco que tinha há que tempos dentro de um alguidar e lá arranjei coragem para o ir amassando, de acordo com a manufactura de uma série de azulejos de diferentes tamanhos e tipologias e espessuras, que me foram pedidos há algum tempo – e sem pressa – para vários projectos também eles com diferentes tamanhos e tipologias e espessuras.

Escusado será dizer que o fiz na época mais húmida do ano e que a oficina está gelada, portanto, ainda vão demorar a secar…

 

ESMERALDA

Saíram hoje do forno os últimos azulejos manuais que fiz para o Atelier de Arquitectura Inês Brandão e que irão forrar a chaminé da cozinha de um apartamento que está a ser renovado no centro de Lisboa.

Estou muito satisfeita com este trabalho, é o tipo de encomenda que gosto: quantidade controlada de azulejos – 2m2 apenas -, a qual pode ser feita cuidadosamente e com tons personalizados de acordo com o pedido do cliente. Dentro do orçamento estavam contemplados testes de cores, não só de vidrados, como também de tintas e ainda duas amostras no formato final. E se assim não fosse, nunca me ocorreria utilizar este vidrado tão branco como fundo, nem este verde esmeralda ou azul esmeralda, ou o que lhe queiram chamar – depende do nível de daltonismo de cada um -, pois estou demasiado formatada no clássico azul escuro sobre branco antigo. E assim ficaram lindos!

ILUSTRAÇÃO CIENTÍFICA

Estou muito satisfeita com o conjunto de azulejos que pintei por encomenda para a Universidade da Lapónia e cujos desenhos aguarelados chegaram por carta directamente à caixa do correio aqui da oficina.

Foram 18 ilustrações botânicas diferentes, com representações científicas de plantas do Ártico, bastante detalhadas e minuciosas; as quais reproduzi manualmente, uma a uma, sobre o vidrado crú, com o rigor e a obsessão de quem teve formação e trabalhou em restauro durante 20 anos e que agora ganha a vida a fazer réplicas de azulejos quase miméticas – uma trabalheira, portanto; muito maior do que aquela que avaliei ao princípio, quando julguei que era apenas para pintar flores.

Foi toda uma linguagem nova, muito diferente da que estou habituada e a sua aprendizagem foi principalmente o que ganhei com este trabalho. Tenho pena que me tenham encomendado azulejos industriais finos, de 15×15 – os mais feios de todos, aqueles que eu não uso nunca! – mas enfim, acho que agora consigo ponderar voltar a pintar alguns destes desenhos em azulejos manuais, feitos aqui na oficina, muito mais bonitos. E só porque sim.