EM SECAGEM

Entretanto, entre umas e outras coisas que tenho em mãos, acabei há uns dias de fazer a produção de chacotas para a execução de 100 réplicas de azulejos de meio-relevo, para as quais modelei o protótipo há cerca de um mês.

Tratam-se de réplicas de azulejos industriais, as quais estão a ser realizadas cem por cento à mão e que, obviamente, terão as devidas diferenças – apesar de eu estar a tentar fazê-los o mais parecidos possível. As chacotas são bastante finas e devem secar lentamente, empilhadas umas em cima umas das outras, para não correrem o risco de ficarem todas empenadas. O controlo de secagem é feito diariamente e os azulejos que se apresentam mais secos vão sendo estendidos em ganapos, para adiantar o processo – porque com a humidade que ainda se faz sentir aqui na oficina, estou a ver que nunca mais saio daqui.

 

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COROAÇÃO DA VIRGEM

Há coisa de um ano estive ocupada com a manufactura de cerca de oitenta réplicas de azulejos de padrão do séc XVII, para colmatarem as lacunas que existiam no interior de uma pequena igreja na Louriceira e que na altura falei aqui.

Os trabalhos de conservação e restauro da igreja entretanto continuaram e fiquei agora a saber que, aquando da intervenção no revestimento azulejar, foram encontrados alguns azulejos figurativos que se encontravam assentes por aqui e por ali, no meio da padronagem e que depois de montados e organizados, vieram a revelar um registo votivo à Virgem Maria – o que faz sentido, uma vez que esta igreja ainda hoje é uma igreja de culto Mariano.

O painel  chegou aqui à oficina com dez azulejos em falta e segundo percebi, foi feita alguma investigação para se tentar encontrar alguma imagem antiga ou gravura na qual se conseguisse ver como seria o desenho original, a qual resultou em nada. A ideia de fazer azulejos lisos, sem desenho e dentro dos tons dos azulejos envolventes, foi posta de parte pela própria igreja, que alegou que sendo a mesma devota ao culto Mariano e estando o painel exposto, os crentes gostariam de rezar a uma imagem completa – o que para mim, apesar de não professar nenhuma religião, faz todo o sentido.

Decidi fazer o desenho o mais simples possível, tentando não inventar muito – ora fazendo simetrias, ora seguindo pormenores do desenho do azulejo anterior, ora dando continuidade a linhas e tons e manchas cromáticas; como se fosse possível saber o limite entre o inventar muito e o inventar pouco.

Adoro estes pequenos registos religiosos do séc. XVII, feitos com tanta ingenuidade por artesãos sem grandes noções de desenho, mas confesso que a coisa não foi totalmente fácil; por vezes não havia nenhum indício por onde me guiar, não existiam simetrias, o desenho não parecia fazer nenhum sentido e os azulejos envolventes não pareciam bater certo uns com os outros – várias vezes verifiquei as posições, mas estavam todas correctas. Nalguns pontos limitei-me apenas a prolongar um pouco as linhas de contorno existentes e assim as deixei ficar, sem saber o que fazer com elas.

Para não falar dos tons, claro – o manganês é muito instável e difícil de trabalhar e tenho pouca experiência na aplicação do verde cobre à pintura; já para não falar do vidrado branco do fundo, tão pouco branco.

Enfim, o desenho foi aprovado por parte da igreja e os azulejos foram pintados – alguns pormenores resultaram melhor do que outros; agora se calhar fazia-os doutra maneira, porque me parece que os originais não seriam bem assim; mas na verdade não faço ideia nenhuma de como seriam e todas as hipóteses poderiam ser sempre diferentes e esta até está razoável.

E agora recebi a fotografia do painel restaurado e já aplicado na parede; a ver se um dia destes consigo ir à Louriceira para visitar a Igreja Matriz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GRAVAR

Hoje estive a gravar o protótipo de um azulejo em meio relevo, o mais parecido possível com este original que me entregaram para eu fazer a produção de cerca de cem réplicas – e que estava parado há já algum tempo ali na prateleira, à espera de ordem para avançar.

Confesso que esta tarefa de modelar e gravar é de todas a que mais me agrada fazer; fico obcecada e não consigo parar para a pausa do chichi ou a do lanchinho a meio da manhã ou até mesmo para o almoço – hoje fui safa pelo carteiro, que felizmente apareceu com uma carta registada para eu assinar, já passava das duas da tarde e foi quando aproveitei para comer, em pé e a olhar para o trabalho, quase a intercalar as garfadas com os acabamentos com o teque de corte.

Sou uma privilegiada, eu sei.

 

 

 

CERCADURA

 

Comecei finalmente a preparar-me para pintar uma série de réplicas variadas de azulejos do séc XVII, para as quais me foram pedidas chacotas não só com as mesmas medidas, como também com as mesmas espessuras dos azulejos originais – cerca de 1,5cm ou até um pouco mais,  e depois escacilhadas, à boa maneira dos azulejos tradicionais portugueses desta época.

As experiências de cor estão feitas, as de vidrados também – eles próprios variam um do outro. Vou começar por estes azulejos de cercadura, com anjos virados para a esquerda e para a direita, que são os meus favoritos.

 

 

EM SECAGEM

Aproveitando a deixa de duas encomendas que tive para fazer uma série de réplicas de azulejos de tamanhos, espessuras e técnicas diferentes, para fins variados, tenho andado ocupada a produzir chacotas manuais também para mim – e assim ficam já todas a ver se secam, que com o frio gelado que tem estado aqui na oficina, às vezes fico a pensar que têm mais utilidade como desumidificadores do ambiente e na melhor das hipóteses, lá para a Primavera devo conseguir cozê-las.

BISELADOS

Às vezes as coisas mais simples acabam por se revelar as mais complicadas. Tenho andado aqui às voltas com experiências de vidrados para tentar encontrar a cor de mel mais parecida – já não digo igual – à do azulejo biselado que me entregaram a fim de eu fazer algumas réplicas para um pequeno edifício na Ajuda.

A coisa não tem sido fácil, mas felizmente ocorreu-me pedir uma fotografia da fachada em questão e – tal como já devia estar cansada de saber – os azulejos originais variam de tons quase tanto como os meus, mais a mais tratando-se de vidrados transparentes coloridos com óxidos metálicos.

Assim sendo, e em boa hora, dou por terminada esta tarefa; a continuar assim, em breve arriscava-me a ter mais experiências de cor do que as cerca de quarenta unidades que preciso de fazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ANO DA ESTAMPILHA

Entre as mil e uma coisas que ando a fazer ultimamente, comecei esta semana a trabalhar em mais um pequeno projecto de réplicas de azulejos para uma fachada de um edifício em Lisboa – de repente e, agora que já estamos em Dezembro, começo a aperceber-me de que nunca tinha feito tantos azulejos de estampilha como neste ano; desta vez serão cinquenta unidades deste padrão e mais quinze para o respectivo friso e curiosamente já é a segunda variante desta padronagem linda que faço em tão pouco tempo.