CESOL

Entreguei hoje os azulejos que fiz para a Igreja de Cardigos, pertencente à diocese de Portalegre, os quais, parecendo fáceis de realizar, ainda me deram alguma água pela barba.

Tratam-se de réplicas de azulejos de meio-relevo industriais, feitos nos anos 70 pela Cesol, uma antiga fábrica de cerâmica existente em Souselas, e que eu tentei replicar manualmente, apesar de saber de antemão – e avisar – que o aspecto final seria sempre diferente do dos azulejos originais: impecavelmente planos e regulares, de corpo cerâmico feito em pasta branca e espessura fina e superfície vítrea imaculada, sem o mínimo defeito – perfeitamente fundida, sem nenhuma bolhinha ou ponta de alfinete, nada.

E assim sendo, entre a modelação do azulejo protótipo; a execução do molde que deveria ser a madre mas que afinal acabou por servir para a manufactura de mais de cem unidades; a secagem lentíssima e controlada, em pilhas de azulejos, a fim de tentar evitar empenos e deformações; a humidade deste inverno interminável aqui dentro da oficina; a procura da solução para mudar o tom das chacotas em pasta alaranjada que depois se iria notar sob a transparência do vidrado azul; os testes e experiências de cor falhados; as noites mal dormidas; o vidrado fino de mais; o vidrado grosso demais; a vidragem manual de cada azulejo a contar 1,2,3,4… sempre ao mesmo ritmo; a fornada à temperatura certa com o patamar final correcto; o acondicionamento em caixas de cartão e a entrega ao cliente esta tarde, passaram-se mais de dois meses.

Um pouco mais do que tinha previsto. Mas consegui.

 

 

 

 

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ALMA PORTUGUESA

Terminei a manufactura do painel de azulejos que fiz para a ALMA Portuguesa, uma loja com projecto da arquitecta Sofia Torres Pereira que, se tudo correr tão bem como esta produção, abrirá ainda este mês em Bordéus.

O painel é grande – vi-me aflita para o montar aqui no chão da oficina e mais ainda para o fotografar -; tem 221 azulejos, feitos e pintados à mão um a um, de acordo com o desenho que me foi entregue. O próximo passo será acondicionar os azulejos em caixas devidamente marcadas e entregá-las à transportadora que as levará para França.

Estou muito satisfeita com o resultado deste trabalho; fico ansiosa para ver fotografias dos azulejos na parede!

 

 

 

PROJECTO

Tenho andado ocupada com um novo projecto de azulejaria, que, para variar, se destaca um pouco das tradicionais réplicas de azulejos antigos que costumo fazer – e que adoro.

Trata-se de um painel de azulejos, novo, feito por encomenda segundo o desenho que me foi entregue, para uma loja de artigos portugueses que vai abrir em Bordéus. O painel é grande, tem 221 azulejos no total, divididos por 11 tipologias diferentes, as quais variam cromaticamente entre o branco e quatro tons de azul. No centro do painel está o nome da loja, como se se tratasse de um pequeno painel dentro de um outro, maior. Os azulejos são todos pintados à mão, um a um e apesar de não serem de difícil execução, ainda requerem algum trabalho e especial atenção, para no fim, baterem todos certos com o projecto apresentado.

MASCOTES

Há muitos anos – muitos, acho que mais de quinze; muito antes de eu ter a mesa de lastras e quando ainda me dedicava quase a 100% à conservação e restauro de azulejos -, foi-me pedido um orçamento para azulejos manuais laranjas e vermelhos, com 10x10cm cada, com o requisito de serem bastante toscos e irregulares. Como na altura tinha muito pouca noção dos tempos e dos custos da manufactura deste tipo de azulejos, resolvi fazer um metro quadrado de chacotas para me ajudar com as contas.

O trabalho nunca foi para a frente e as quase cem chacotas ficaram aqui na oficina, guardadas num armário, a ocupar espaço – nunca lhes dei grande uso; não se adaptavam aos trabalhos que eu ia tendo mas fazia-me impressão deitá-las fora. E assim sendo, carreguei com elas várias vezes de um lado para o outro; volta e meia lá ia usando uma ou outra para testes de cores ou amostras de vidrados, mas nunca lhes consegui ver grande utilidade.

Até agora – finalmente consegui dar-lhes uso.

 

 

 

 

 

ROCAILLE

Entreguei a semana passada 32 réplicas de azulejos para colmatarem as lacunas integrais existentes em cinco silhares de uma das salas do Palácio Marquês de Tancos, em Lisboa.

A tarefa não foi totalmente fácil – os azulejos originais adjacentes às lacunas estavam todos nas paredes; os azulejos em falta tinham todos medidas diferentes, algumas muito estranhas como 15,3 x 14,2cm ou 13,5 x 13,8cm e as chacotas tiveram de ser cortadas à mão uma a uma para cada lugar; os desenhos foram copiados de cócoras no meio da poeirada e ajustados caso a caso para ver se as linhas de contorno e as manchas cromáticas batiam certas o mais possível com os desenhos de entorno e por fim, encontrar o tom de manganês igual ao original é uma chatice e pode dar cabo da cabeça de qualquer um.

Curiosamente, correu praticamente tudo bem à primeira – e os azulejos já estão na parede. Confesso que por esta não esperava, mas fico muito satisfeita.

 

AOS QUADRADINHOS

Não sei bem como, mas de repente – e aproveitando a deixa de começar a criar os meus próprios azulejos para decoração de cozinha, que já falei aqui -, desatei a fazer pequenos azulejos manuais baseados em pictogramas, símbolos e abreviaturas conhecidos e usados comumente um pouco por todo o lado.

A ideia, para já, é fazer uma série de pequenos conjuntos de 4 azulejos que relatem algo, que transmitam alguma ideia; que contem uma história – um pouco à laia de banda desenhada; neste caso e literalmente, à laia de histórias aos quadradinhos.

E agora confesso que ando obcecada com isto e não consigo deixar de ter ideias e de as produzir e quanto mais as produzo, mais ideias tenho e quanto mais ideias tenho, mais quero produzi-las.

Conclusão: muitos anos a pintar anjinhos, folhas de acanto e volutas dão nisto.

 

ESTAMPILHA

Aqui há uns tempos fui desafiada para criar pequenos conjuntos de 4 azulejinhos manuais, pintados, com 7x7cm cada, para servirem de decoração de cozinha. Lembrei-me imediatamente daqueles pequeninos que faço, baseados na azulejaria tradicional portuguesa – que são tããão giros! – e quando os mencionei, disseram-me que sim, que “podiam ser esses e também outros, quaisquer outros que eu quisesse criar”.

Neste ponto confesso que bloqueei – mais de vinte anos a trabalhar em conservação e restauro de azulejos, dentre os quais os últimos seis ou sete foram dedicados a pintar réplicas para monumentos e edifícios, dão nisto. “Outros quaisquer, que eu quisesse criar… ” Como assim? Mas que mais é que se pode pintar em azulejo que não seja baseado na azulejaria tradicional portuguesa? Impossível, NÃO HÁ NADA!!! Ok, ok, bem sei que já criei uma série de azulejos diferentes – que se podem espreitar aqui – mas enfim, era outra coisa; eram azulejos relevados, não eram azulejos pintados.

Depois, aos poucos, lá fui raciocinando, claro; cozinha… cozinha…; o que é que tem a ver com cozinha?, o que é que pode ter a ver com cozinha?; e as ideias começaram a surgir; primeiro devagar, depois mais depressa  e depois em catadupa; sempre com a cabeça a mil e o entusiasmo de produzir, produzir!, de modo a quase ter de ser arrancada aqui da oficina.

E pronto; aqui estão eles; os primeiros resultados – azulejos manuais, pequeninos, pintados com estampilha.

E agora já tenho mais ideias novas.