REVIVALISMO

Estou satisfeita com as chacotas que fiz desta réplica de um dos inúmeros azulejos em relevo executados pela extinta Fábrica de Massarelos, em meados do séc. XIX e que, por razões óbvias, podem ser encontrados a cobrir tantas fachadas de edifícios do Porto e do norte do país em geral.

Em laia de curiosidade, descobri agora que estes azulejos em relevo são designados como sendo de produção semi-industrial, uma vez que a tecnologia empregada no seu fabrico era ainda muito próxima à da manufactura e os motivos decorativos tinham um cariz revivalista, inspirado em padronagens e paletas cromáticas utilizadas em períodos anteriores. A repetição de um elemento para formar um módulo de padrão simples e o uso das linhas diagonais foram soluções estilísticas recorrentes nas padronagens pombalinas e o emprego do amarelo e branco provém dos tons característicos da paleta cromática do séc. XVII. É engraçado como nunca tinha pensado nisto antes, mas agora faz-me todo o sentido.

Voltando a estas réplicas e como já disse antes, estou satisfeita com os resultados. Ao contrário dos azulejos originais, os meus foram produzidos totalmente à mão. Estão enchacotados e prontos a entregar, tal como me pediram, para depois serem vidrados como bem o entenderem. Não houve nenhuma baixa, mas alguns deles estão um pouco mais tortos e empenados do que aquilo que eu gostaria; fruto da secagem, com certeza e talvez também do tipo de barro que utilizei. Para a próxima tenho de usar uma pasta com chamote, para evitar este tipo de problemas.

MEIO-RELEVO

Acabei ontem a produção das réplicas de azulejos e frisos em meio-relevo, da antiga Fábrica de Sacavém, que me foram pedidas para o revestimento de uma pequena fachada em Olhão – 200 azulejos e 100 frisos, feitos de raiz, totalmente à mão, um a um.

A execução de um protótipo foi bastante complexa e teve de ser executada através de um positivo e de um negativo e não sei como, porque nunca me aconteceu, enganei-me várias vezes sempre no mesmo ponto e por várias vezes troquei côncavos com convexos e convexos com côncavos  e por várias vezes tive de repetir o molde até chegar a um azulejo com um relevo semelhante ao dos originais.

A manufactura de chacotas foi morosa, o barro que utilizei seca facilmente e é difícil de amassar e mais uma vez desejei ter uma pequena fieira que me ajudasse nesta tarefa. Cada unidade foi prensada manualmente e a sua secagem foi vigiada com cuidado, a fim de minimizar o mais possível os empenos naturais deste processo de fabrico e de aproximar o seu aspecto ao das industriais, completamente planas, impecáveis.

Os vidrados também tiveram o seu quê. Para além dos tons, que não foram fáceis de encontrar e estando a falar de vidrados transparentes, altamente fundíveis, aplicados sobre um relevo, convém que integrem na sua composição um elemento estabilizante que lhes aumente a viscosidade de modo a que se mantenham fundidos sobre a peça sem escorrer. Foram realizados inúmeros testes em busca dos tons exactos e da consistência perfeita; inúmera esperança e desilusão, sendo que com esta última acrescenta-se ainda dois dias a descontar no prazo de entrega da encomenda.

Depois, a vidragem. Os vidrados foram aplicados manualmente, com pêra de borracha, um a um, tom por tom; primeiro o fundo, depois os relevos, com cuidado para não borrar, raspando ora aqui, ora ali; foi pela via mais difícil, de certeza que não foi assim que fizeram isto originalmente, mas na verdade não faço a mínima ideia de como é que fizeram isto originalmente, sendo um processo industrial, em que não se perdia tempo com estes preciosismos.

Ontem cozi os últimos 60 azulejos que faltavam, todos aqueles que precisaram de levar retoques e cozerem uma segunda vez. Amanhã saem do forno, espero que esteja tudo bem. Não estão perfeitos, mas não consegui melhor. Agora quero vê-los na parede.

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VERDE COBRE

Acabaram de sair do forno os primeiros azulejos que ando a fazer para a nova cafetaria do palácio de Sintra.

São 150 unidades de azulejos verdes, executados sobre chacotas manuais com 14x14cm, baseados nos que existem no Pátio do Leão e tal como estes, apresentam várias tonalidades de verde, resultantes da vidragem ser feita à mão com vidrado transparente e óxido de cobre.

 

 

ESGRAFITADOS

Dou por terminadas e prontas a serem entregues, as últimas peças que fiz para o novo circuito de acessibilidades do Palácio Nacional de Sintra, umas das mais desafiantes que já tive de fazer – duas réplicas do conjunto azulejar que emoldura a porta ogival da Sala das Sereias, constituído por vários azulejos individuais, com decoração esgrafitada, executado à forma e medida da cantaria.

A técnica do esgrafitado apareceu nos inícios do século XVI e consistia na remoção do vidrado escuro de um azulejo, com um estilete ou prego até o corpo cerâmico ficar à vista, deixando-o permanecer apenas nos motivos decorativos. As zonas descobertas podiam então ser preenchidas com um betume ou cal, na cor que se pretendia.

Cada uma destas peças é composta por três blocos cerâmicos juntos, onde cada azulejo individual aparece sugerido pela gravação de sulcos no barro, a simular as juntas de acordo com as originais existentes entre os azulejos na parede. Os três blocos foram modelados a partir de lastras com 2cm de espessura e secos ao mesmo tempo, de acordo com a retracção final do barro, tendo em vista a reproduzir a mesma forma e dimensão do conjunto azulejar da parede, de modo a que o motivo decorativo, aplicado depois da primeira cozedura, coubesse na íntegra dentro da superfície existente.

A decoração é uma espécie de falso esgrafitado, com uma aparência semelhante à do verdadeiro – confesso que nunca experimentei fazê-lo; em abono da verdade, também nunca tinha experimentado fazer este falso, mas como a necessidade aguça o engenho, depois de algumas experiências consegui encontrar um método que de certa forma se parecesse visualmente ao motivo decorativo a reproduzir e se à vista este ainda pudesse ser mais apurado – o vidrado poderia ser mais escuro -, pelo menos a sensação táctil existente entre as zonas vidradas e as zonas em chacota parece-me bastante idêntica. Que é o que se pretende neste caso.

 

 

 

 

 

AZUL E BRANCO

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A par dos azulejos de aresta-viva com as esferas armilares, tenho andado também a tratar das experiências de cores para as réplicas dos de figura avulso existentes nos bancos do Miradouro de Sta. Luzia, em Lisboa – baseada em pequenos fragmentos que me foram entregues e que variam de tonalidades entre eles. Quer-me parecer que o mais sensato seja usar dois vidrados brancos diferentes, para as réplicas se diluírem no meio dos originais… Enfim, resultados, agora só amanhã.

ARESTA-VIVA

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Na quinta-feira passada fui contactada para fazer algumas réplicas de azulejos para o Miradouro de Sta. Luzia, em Lisboa – o que veio mesmo a calhar, uma vez que estava sem trabalho de novo.

Tratam-se de alguns azulejos de aresta-viva com a esfera armilar, algumas figuras avulso 15x15cm e ainda meia-dúzia de azulejos figurativos manuais para colmatarem as lacunas da fonte, dos bancos e do painel com a vista de Lisboa existentes lá no Miradouro.

O que não dá jeito nenhum é o prazo curtíssimo que tenho para entregar principalmente as esferas armilares e as figuras avulso – dia 16 deste mês convinha que estivessem na parede e não gosto de começar um trabalho já em stress com o prazo.

Apesar de não serem muitas unidades de cada tipologia, preocupam-me sobretudo  os de aresta-viva, que para além da manufactura do molde, ainda há todo o processo  de execução de chacotas, que têm de secar controlada e lentamente o mais rápido possível, para que não empenem nem se partam durante a primeira cozedura e depois ainda a vidragem e a pintura e depois ainda a segunda cozedura.

Hoje tirei do forno as primeiras experiências de cores de vidrados; para já, parece-me que estou no bom caminho. Mas estou a achar isto tudo muito apertado.

MOLDURA

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Finalmente consegui acabar – e entregar e montar – o projecto da moldura em azulejos que me encomendaram aqui há uns tempos para o espelho de um balneário de piscina e que entretanto tive de interromper, mas que já tinha falado aqui antes.

Depois de dar muitas voltas à cabeça, acabei por utilizar chacotas  indústriais, cortadas de diferentes tamanhos, de modo a perfazer as dimensões pretendidas – 70x55cm – e vidrar umas com azul cobalto transparente de modo a contrastarem com as outras, pintadas com tintas de alto fogo sobre vidrado branco.

O clássico azul e branco – mas um pouco diferente.

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Mais fotos na minha página da Tardoz, no facebook.

GOETHE-GARTEN

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Está terminado o assentamento do painel de azulejos que fiz sob encomenda para o lago do jardim do Goethe-Institut, em Lisboa.

O pedido foi-me feito há cerca de um mês e fui logo avisada de que havia alguma pressa, convinha que tudo – leia-se manufactura e assentamento – estivesse pronto dia 27 de Maio. E pretendia-se movimento, algo com movimento.

Em tempo record e apesar da pouca experiência que tenho em fazer painéis de raiz e muito menos tão livres como este, consegui fazer o projecto, organizar, pintar e cozer 920 azulejos. E ainda coordenar o assentamento. E acabar dois dias antes do fim do prazo.

Estou muito satisfeita! Agora só falta juntar a água.

(Já agora aproveito para agradecer o contacto à Julinha, a ajuda ao Adrian  e a estereotomia ao Pedro!)

NO LAGO

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Cansada e empoeirada demais para escrever a esta hora. Mas ainda assim bastante satisfeita: hoje estive o dia todo a coordenar a montagem do painel de azulejos que andei a pintar em tempo recorde nestas duas últimas semanas.

O lago começa a ganhar outra vida e as pessoas começam a comentar que está muito bonito.