ESGRAFITADOS

Dou por terminadas e prontas a serem entregues, as últimas peças que fiz para o novo circuito de acessibilidades do Palácio Nacional de Sintra, umas das mais desafiantes que já tive de fazer – duas réplicas do conjunto azulejar que emoldura a porta ogival da Sala das Sereias, constituído por vários azulejos individuais, com decoração esgrafitada, executado à forma e medida da cantaria.

A técnica do esgrafitado apareceu nos inícios do século XVI e consistia na remoção do vidrado escuro de um azulejo, com um estilete ou prego até o corpo cerâmico ficar à vista, deixando-o permanecer apenas nos motivos decorativos. As zonas descobertas podiam então ser preenchidas com um betume ou cal, na cor que se pretendia.

Cada uma destas peças é composta por três blocos cerâmicos juntos, onde cada azulejo individual aparece sugerido pela gravação de sulcos no barro, a simular as juntas de acordo com as originais existentes entre os azulejos na parede. Os três blocos foram modelados a partir de lastras com 2cm de espessura e secos ao mesmo tempo, de acordo com a retracção final do barro, tendo em vista a reproduzir a mesma forma e dimensão do conjunto azulejar da parede, de modo a que o motivo decorativo, aplicado depois da primeira cozedura, coubesse na íntegra dentro da superfície existente.

A decoração é uma espécie de falso esgrafitado, com uma aparência semelhante à do verdadeiro – confesso que nunca experimentei fazê-lo; em abono da verdade, também nunca tinha experimentado fazer este falso, mas como a necessidade aguça o engenho, depois de algumas experiências consegui encontrar um método que de certa forma se parecesse visualmente ao motivo decorativo a reproduzir e se à vista este ainda pudesse ser mais apurado – o vidrado poderia ser mais escuro -, pelo menos a sensação táctil existente entre as zonas vidradas e as zonas em chacota parece-me bastante idêntica. Que é o que se pretende neste caso.

 

 

 

 

 

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FASES DA SECAGEM

Estou na recta final da manufactura das réplicas de azulejos para o novo circuito de acessibilidades do Palácio da Vila, em Sintra; depois deste, falta-me só fazer mais um – quer dizer, dois, porque foi-me pedido sempre dois exemplares de cada peça.

Acabei agora de modelar o último protótipo para o qual precisei de fazer molde e as novas chacotas encontram-se já em fase de secagem. Trata-se de um pequeno azulejo relevado, réplica dos frisos que rematam o revestimento cerâmico existente no Pátio Central do palácio e que bastante trabalho me deu, mais do que aquele que eu estava a contar – foi totalmente modelado a olho, através das fotografias que tirei quando lá fui, uma vez que não havia nenhum original guardado no acervo, que eu pudesse trazer aqui para a oficina para me guiar.

Ficou com pequenas diferenças, mas todos os originais as têm entre si.

 

CHACOTAS

Começo a ver os resultados do trabalho que tenho andado a fazer nos últimos tempos.

Apesar de estar agora a modelar o protótipo de um friso em relevo e nem ter sequer ainda começado a trabalhar na última peça que me falta para terminar a encomenda do Palácio da Vila, em Sintra, tenho já as outras peças todas enchacotadas à espera de serem vidradas e depois cozidas novamente – a fase final do processo e aquela que mais me assusta no meio disto tudo.

 

HISPANO-ÁRABES

Continua a bom ritmo a manufactura de réplicas de azulejos que estou a fazer para o Palácio da Vila, a maioria dos quais em corda seca e aresta-viva – técnicas utilizadas nos azulejos de padronagem mudéjar, introduzidos na Península Ibérica através da cultura árabe e que chegaram a Portugal em finais do século XV, inícios de XVI, através de encomendas a oficinas hispânicas.

A corda seca e a aresta-viva, são no fundo uma evolução técnica do fabrico dos revestimentos murais de padronagem alicatada, composta por uma infinidade de pequenas peças únicas, de formas e cores diferentes, recortadas a alicate de placas de barro vidradas, de cor lisa. Com a introdução destas novas técnicas de fabrico – primeiro a corda seca e depois a aresta ou cuenca -, conseguia-se criar revestimentos com padronagens de efeito visual semelhante às anteriores, a quais podiam ser produzidas com maior rapidez e muito provavelmente, a mais baixo custo, não só de fabrico, como também de assentamento. As peças passaram a ser de maiores dimensões e para criar esse efeito visual, a superfície apresentava pequenas zonas estanques, as quais eram vidradas com cores diferentes e protegidas por separadores que impediam que estas se misturassem ao fundir durante a cozedura.

Assim, a corda seca consistia na gravação do desenho numa placa de barro ainda húmida. Os sulcos obtidos eram depois preenchidos a manganês misturado com uma gordura, garantindo assim a separação dos vidrados de várias cores durante a cozedura. Pelo contrário, a aresta-viva consistia numa saliência com o desenho, que era conferida ao barro ainda húmido com o auxílio de um molde de madeira ou metal. Estas saliências faziam o mesmo efeito de separador dos vidrados coloridos, impedindo-os de se misturarem durante a cozedura.

ANO NOVO

 

Aproveitando o início do ano e também a encomenda que tive da loja do Mosteiro dos Jerónimos para fazer alguns fechos de abóbada em barro refractário, ando há três ou quatro dias ocupada a produzir uma série de Relógios de Sol que gostaria de deixar já feitos para o que der e vier – fica tudo a secar ao mesmo tempo e rentabiliza-se uma fornada de alto fogo.

FUCKING CHRISTMAS

De vez em quando acontece-me isto: tenho encomendas de trabalhos muito engraçados e divertidos de fazer. Aqui há uns tempos, pintei uns azulejos com desenhos infantis, que na altura falei aqui e agora foi impossível não aceitar o desafio da Ana Saramago para fazer estas decorações de Natal tão fofinhas para o  Hardcore Fofo   – são a minha cara!

Confesso que foi muito libertador escrever La la la, o caralho! umas vinte vezes – sempre me apeteceu e nunca me tinha acontecido.

 

 

MASCOTES

Há muitos anos – muitos, acho que mais de quinze; muito antes de eu ter a mesa de lastras e quando ainda me dedicava quase a 100% à conservação e restauro de azulejos -, foi-me pedido um orçamento para azulejos manuais laranjas e vermelhos, com 10x10cm cada, com o requisito de serem bastante toscos e irregulares. Como na altura tinha muito pouca noção dos tempos e dos custos da manufactura deste tipo de azulejos, resolvi fazer um metro quadrado de chacotas para me ajudar com as contas.

O trabalho nunca foi para a frente e as quase cem chacotas ficaram aqui na oficina, guardadas num armário, a ocupar espaço – nunca lhes dei grande uso; não se adaptavam aos trabalhos que eu ia tendo mas fazia-me impressão deitá-las fora. E assim sendo, carreguei com elas várias vezes de um lado para o outro; volta e meia lá ia usando uma ou outra para testes de cores ou amostras de vidrados, mas nunca lhes consegui ver grande utilidade.

Até agora – finalmente consegui dar-lhes uso.