DEPÓSITO/RESERVATÓRIO/CONTENTOR

Há coisa de um mês fui a uma visita guiada à horta da Faculdade de Ciências de Lisboa e confesso que desde aí tenho andado obcecada com a ideia de manufacturar pequenos vasos, marcadores para plantas, medidores de humidade da terra e qualquer coisa que rentabilize a rega, não só no dia-a-dia, mas principalmente naquelas alturas em que uma pessoa está fora de casa.

Ainda em fase experimental – muito experimental -, tirei hoje do forno este pequeno contentor em terracota, baseado numa técnica de rega ancestral, com mais de 4000 anos, que permite manter o solo sempre irrigado, limitando o consumo de água de uma forma sustentável.

Inspirada pelas antigas Ollas – maravilhosas! – a ideia é enterrar este cone dentro do solo, apenas com a boca de fora, e enchê-lo com água. Ao ser porosa, a terracota vai libertando a água para a terra de uma forma constante e sem excesso, de acordo com o seu grau de humidade e com a necessidade das plantas. Ao regar assim e em profundidade, perto das raízes, consegue-se também poupar uma boa parte da água que muitas vezes se evapora quando a rega é feita à superfície.

Para já estou muito contente com este resultado; agora falta ainda testar uma série de aspectos, como tamanhos e respectivas capacidades de água, encontrar cortiça boa para fazer de rolha e definir um nome para isto.


 

CRUA – SEGUNDA PARTE

E a semana acabou assim: estive a vidrar a peça inferior da réplica do friso cerâmico da Sala Árabe do Palácio Nacional de Sintra e que faz conjunto com esta que já mostrei aqui.

Coisas que hoje aprendi, depois de fazer mal:

  • é melhor vidrar primeiro as superfícies laterais e só depois, então, vidrar o fundo e os topos, fica um acabamento mais perfeito;
  • para vidrar com trincha parece-me melhor que o vidrado esteja um pouco mais líquido, mesmo arriscando ter de repetir as passagens três ou quatro vezes no mesmo sítio, em várias direcções;
  • com a pera de borracha convém que o vidrado esteja um pouco mais cremoso;
  • nada como trabalhar com as ferramentas adequadas a cada tarefa e ao fim que se pretende (esta já sabia, mas confirmei);
  • melhor trabalhar com luz natural – da parte da manhã, no caso aqui da oficina (esta também já sabia, mas fiz à tarde, com luz artificial);
  • já percebi porque é que esta técnica não teve grande desenvolvimento, dá imenso trabalho e demora-se um tempão para fazer um só azulejo, imagino que saíssem caríssimo!

Segue hoje para o forno, resultados só na segunda-feira.

 

MAÇAROCA E FLOR-DE-LIS

Depois da empreitada que tive no final do ano passado, a produzir cerca de 50 réplicas de azulejos diferentes, com várias tipologias, tamanhos e espessuras para o Palácio Nacional de Sintra, foi-me agora pedida  ainda a manufactura de mais dois exemplares, que não tinham ficado decididos na altura.

Trata-se de uma réplica de um dos elementos do friso de azulejos relevados da Sala Árabe, compostos por duas peças verticais, com uma maçaroca numa flor-de-lis. Tal como a maioria das outras réplicas que fiz anteriormente, não existe nenhum exemplar disponível para ter comigo aqui na oficina, nem retirei nenhum molde do relevo directamente dos azulejos na parede, pelo que a modelação das peças é feita a olho, tentando reproduzir os motivos de modo a que estas se assemelhem o mais possível às originais do séc XVI.

Acabei agora de modelar o elemento superior; o próximo passo é tirar-lhe o molde.

 

EDIÇÃO LIMITADA

Estou muito satisfeita: em tempo record consegui fazer, embalar e entregar no prazo previsto uma edição limitada de 70 Relógios de Sol, que me foram encomendados pela Ageneal, a Agência Municipal de Energia de Almada, da Câmara Municipal de Almada, para assinalarem o seu 20º aniversário.

Cada peça é única, mede cerca de 12x12cm e foi totalmente executada à mão; o mostrador é em grés, com aplicação pontual de óxido de ferro, gravado de acordo com a latitude 38ºN e personalizado com o logotipo da Ageneal e o gnómon (ponteiro) é em aço inoxidável.

Em cada tardoz, o carimbo da Ageneal e o da Tardoz e a numeração da respectiva peça.

RELÓGIOS DE SOL

Estou muito contente: foi-me encomendada uma edição limitada de 70 Relógios de Sol comemorativos do vigésimo aniversário de uma associação cujo objectivo é contribuir para o aumento da eficiência energética e para a melhoria do aproveitamento das energias renováveis.

Os relógios foram todos cortados à mão e os mostradores foram gravados, um a um, de acordo com a latitude de Lisboa. Neste momento estão todos alinhadinhos nas prateleiras aqui da oficina – encontram-se em fase de secagem. Se tudo correr como espero, daqui a uma semana, quando estiverem bem secos, serão aperfeiçoados e acabados com uma lixa fina, depois levarão óxido de ferro e finalmente estarão prontos para ir a cozer a 1250ºC.

ALICATADOS

Acabei finalmente a manufactura de todos os azulejos que me foram encomendados para a nova cafetaria do Palácio Nacional de Sintra.

Na sua maioria, foram azulejos manuais lisos, quadrados, de várias dimensões e também alguns frisos, uns mais curtos e outros mais longos, para forrar o balcão e as mesas altas, e ainda uma série de paralelogramos para compor um painel de tipo alicatado, baseado no revestimento azulejar da Sala Árabe, que apresenta uma composição geométrica de efeito tridimensional, e que irá decorar a parede de entrada.

CORAÇÃO MASAI

 

Coisas giras que às vezes tenho de fazer aqui na oficina: desta feita, um pequeno painel de azulejos em forma de coração, encomendado especificamente para oferecer num casamento em que a noiva é portuguesa e o noivo é queniano.

O painel exprime a união destas duas culturas, representadas pelos azulejos portugueses e pelas coloridas contas Masai, existentes nos adornos usados por este povo semi-nómada, localizado no Quénia e norte da Tanzânia. Estas peças carregam um grande simbolismo social, não só pelo tipo e forma de ornamentos, como também pelas cores neles utilizadas, onde cada uma tem o seu significado:

Preto: simboliza o próprio povo e as lutas que tem de travar;

Vermelho: é o sangue, a bravura e união;

Branco: representa a paz, a saúde e a pureza;

Amarelo: Sol, fertilidade e crescimento;

Azul: indica o céu e a energia,

Laranja: significa a amizade, a generosidade e a cordialidade.

O painel já seguiu viagem para o Quénia e agora estou muito curiosa para ver a fotografia da reacção dos noivos ao receberem-no no próximo domingo.

 

 

LASTRA

 

Comecei a trabalhar num projecto cerâmico aliciante e bastante diferente daqueles a que estou habituada, o qual aceitei imediatamente quando fui contactada – a manufactura de cinco candeeiros/luminárias/apliques em terracota, para as paredes de um pátio interior de um hotel em Lisboa.

De acordo com o desenho apresentado, serão executados quatro modelos diferentes, todos semelhantes em comprimento e largura, mas distintos na forma e na altura das superfícies frontais – um deles será repetido.

A manufactura não é complicada, mas apresenta alguns requisitos técnicos que convém obedecer; cada modelo será executado com lastras de dimensões consideráveis, as quais têm de ser cortadas tendo em atenção a percentagem de retracção do barro a fim de, no final, se respeitar o mais possível as medidas apresentadas no projecto; as lastras não devem ter uma grande espessura para não conferir demasiado peso a cada peça, mas por outro lado, também não podem ser finas demais, pois terão pouca estrutura e maior tendência a empenar durante a secagem e a cozedura; a montagem das lastras deve ser executada quando as mesmas apresentarem já um certo grau de secagem, caso contrário e, com estas dimensões, estarão moles demais para se poder manusear sem que haja deformação imediata; por último, a secagem deve ser feita muuuito lentamente e apesar desta humidade e frio aqui na oficina e também de uma certa urgência no prazo de entrega das peças, ainda assim vou ter de tapá-las com plástico durante uns dias para tentar evitar empenos, deformações e fendas.

Depois fica a faltar a cozedura, mas cada coisa a seu tempo.