ALICATADOS

Acabei finalmente a manufactura de todos os azulejos que me foram encomendados para a nova cafetaria do Palácio Nacional de Sintra.

Na sua maioria, foram azulejos manuais lisos, quadrados, de várias dimensões e também alguns frisos, uns mais curtos e outros mais longos, para forrar o balcão e as mesas altas, e ainda uma série de paralelogramos para compor um painel de tipo alicatado, baseado no revestimento azulejar da Sala Árabe, que apresenta uma composição geométrica de efeito tridimensional, e que irá decorar a parede de entrada.

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PADRONAGEM INDUSTRIAL

Mais uma encomenda pronta e a riscar da lista dos mil e um afazeres que tenho tido entre mãos desde o início do ano e cujos prazos de entrega vou tentando cumprir ordeiramente e por ordem de chegada ou complexidade – desta feita, cerca de 90 réplicas de azulejos de fachada, de padronagem industrial, que curiosamente me foram encomendados para um revestimento de uma casa de banho e que, não é para me gabar, mas acho que ficaram muito bem.

 

CORAÇÃO MASAI

 

Coisas giras que às vezes tenho de fazer aqui na oficina: desta feita, um pequeno painel de azulejos em forma de coração, encomendado especificamente para oferecer num casamento em que a noiva é portuguesa e o noivo é queniano.

O painel exprime a união destas duas culturas, representadas pelos azulejos portugueses e pelas coloridas contas Masai, existentes nos adornos usados por este povo semi-nómada, localizado no Quénia e norte da Tanzânia. Estas peças carregam um grande simbolismo social, não só pelo tipo e forma de ornamentos, como também pelas cores neles utilizadas, onde cada uma tem o seu significado:

Preto: simboliza o próprio povo e as lutas que tem de travar;

Vermelho: é o sangue, a bravura e união;

Branco: representa a paz, a saúde e a pureza;

Amarelo: Sol, fertilidade e crescimento;

Azul: indica o céu e a energia,

Laranja: significa a amizade, a generosidade e a cordialidade.

O painel já seguiu viagem para o Quénia e agora estou muito curiosa para ver a fotografia da reacção dos noivos ao receberem-no no próximo domingo.

 

 

VERDE COBRE

Acabaram de sair do forno os primeiros azulejos que ando a fazer para a nova cafetaria do palácio de Sintra.

São 150 unidades de azulejos verdes, executados sobre chacotas manuais com 14x14cm, baseados nos que existem no Pátio do Leão e tal como estes, apresentam várias tonalidades de verde, resultantes da vidragem ser feita à mão com vidrado transparente e óxido de cobre.

 

 

PARALELOGRAMOS

Depois de um final de ano atribulado, cheia de encomendas variadas para entregar até ao Natal e final de Dezembro, que me deixaram praticamente sem tempo nenhum para escrever, entrei em 2019 a trabalhar em mais um pedido do Palácio Nacional de Sintra – a manufactura dos revestimentos azulejares do balcão, mesas e parede da nova cafetaria, ainda em construção, baseados nos azulejos existentes em duas salas do palácio, com tamanhos e formas diferentes.

No total são quase 500 azulejos, feitos à mão e que assim de repente não sei bem quando é que vão secar, tal é o frio e a humidade existente aqui na oficina.

ESGRAFITADOS

Dou por terminadas e prontas a serem entregues, as últimas peças que fiz para o novo circuito de acessibilidades do Palácio Nacional de Sintra, umas das mais desafiantes que já tive de fazer – duas réplicas do conjunto azulejar que emoldura a porta ogival da Sala das Sereias, constituído por vários azulejos individuais, com decoração esgrafitada, executado à forma e medida da cantaria.

A técnica do esgrafitado apareceu nos inícios do século XVI e consistia na remoção do vidrado escuro de um azulejo, com um estilete ou prego até o corpo cerâmico ficar à vista, deixando-o permanecer apenas nos motivos decorativos. As zonas descobertas podiam então ser preenchidas com um betume ou cal, na cor que se pretendia.

Cada uma destas peças é composta por três blocos cerâmicos juntos, onde cada azulejo individual aparece sugerido pela gravação de sulcos no barro, a simular as juntas de acordo com as originais existentes entre os azulejos na parede. Os três blocos foram modelados a partir de lastras com 2cm de espessura e secos ao mesmo tempo, de acordo com a retracção final do barro, tendo em vista a reproduzir a mesma forma e dimensão do conjunto azulejar da parede, de modo a que o motivo decorativo, aplicado depois da primeira cozedura, coubesse na íntegra dentro da superfície existente.

A decoração é uma espécie de falso esgrafitado, com uma aparência semelhante à do verdadeiro – confesso que nunca experimentei fazê-lo; em abono da verdade, também nunca tinha experimentado fazer este falso, mas como a necessidade aguça o engenho, depois de algumas experiências consegui encontrar um método que de certa forma se parecesse visualmente ao motivo decorativo a reproduzir e se à vista este ainda pudesse ser mais apurado – o vidrado poderia ser mais escuro -, pelo menos a sensação táctil existente entre as zonas vidradas e as zonas em chacota parece-me bastante idêntica. Que é o que se pretende neste caso.

 

 

 

 

 

PLACAS RELEVADAS

Há muitos anos tive o privilégio de participar na equipa que executou a intervenção de conservação e restauro do revestimento azulejar do quarto de D. Sebastião, no Palácio Nacional de Sintra. Os azulejos encontravam-se em bom estado de conservação e a intervenção consistiu essencialmente em limpeza e consolidações de superfícies vidradas.

Nessa altura estava eu longe de imaginar que alguma vez iria ter de executar réplicas desses azulejos e agora, ei-las. Tenho alguma dificuldade em chamar-lhes “azulejos”, na verdade tratam-se de placas cerâmicas relevadas, com cerca de 20x20cm, com 2cm de espessura – para mais, nunca para menos. O desenho foi retirado no local e o azulejo protótipo foi modelado em barro aqui na oficina, a olho, através de fotografia.

São grandes e pesados, são lindos! Acho que são os exemplares de maiores dimensões que já reproduzi.