BRANCO

Ando há alguns dias a adiantar já testes de cores variados, para duas ou três encomendas distintas que irei começar a executar daqui a um mês, quando voltar à oficina, depois de umas férias merecidas, sem pensar muito nisto – e nem em nada, para falar muito sinceramente. Gostaria de deixar esta parte já feita, porque depois tudo pode avançar mais rapidamente, mas às vezes sinto que estou esgotada e que o melhor seria parar já e depois voltar com a cabeça limpa, pronta a raciocinar e a ver as coisas com alguma clarividência, porque agora tenho tido algumas dificuldades.

Tenho andado à luta para conseguir engendrar um vidrado branco para fazer cerca de 250 réplicas de azulejos do séc XVIII, que, por serem brancos, parecem tão simples, mas a verdade é que já criei não sei quantas receitas para não sei quantas experiências de cores e nada – alguns resultados até têm bastante piada, pois não têm mesmo nada a haver com o procurado e é sempre uma surpresa abrir o forno.

Hoje, finalmente, ao fim de três dias consecutivos a fazer receitas novas, todas falhadas, tirei da mufla de experiências duas ou três amostras com tons muito semelhantes àquilo que pretendo, mas ainda não estou bem convencida. Tenho as minhas suspeitas de que preciso de um óxido que não há, nem nunca houve, aqui na oficina…

 

 

 

 

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DE LÉS A LÉS

 

 

Ontem tive um longo dia.

Tinha bilhete para o intercidades das 6.39h e claro, com medo de não acordar – coisa que nunca me acontece -, ou de não ouvir o despertador – coisa que também nunca me acontece -, praticamente não preguei olho durante a noite toda e ainda não eram seis da manhã quando saí de casa, carregada com amostras de cores de vidrados brancos e de tons de azul, amarelo, verde e manganês, pronta para apanhar o autocarro 750 para a gare do Oriente, o qual apareceu mal cheguei à paragem e que em vinte minutos me pôs lá.

Tal como estava previsto, às 9h cheguei a Aveiro, com o objectivo de me encontrar com a minha colega responsável pela intervenção de conservação e restauro do conjunto azulejar de um solar na Vila de Santar, para onde iríamos depois; mas, aproveitando-me ali, vimos os azulejos da estação, que também estão a ser intervencionados sob a sua responsabilidade, e cujas réplicas serei eu a fazer.

Depois fomos para Santar, a uma hora de caminho, onde tínhamos reunião no Solar de Nossa Senhora da Piedade,  marcada para as onze horas e onde chegámos muito pontualmente. Numa das salas desta casa existem seis silhares de azulejos figurativos que não pertenciam àquele local e que se encontram em mau estado de conservação e com muitos azulejos trocados e muitos azulejos em falta. Os silhares estão na parede e os azulejos são de difícil levantamento, o que quer dizer que os desenhos em falta, relativos a cada azulejo terão de ser devidamente marcados e elaborados de acordo com as linhas, as manchas cromáticas e os tons dos azulejos envolventes uma vez que estes não estarão aqui na oficina aquando da pintura das réplicas. Assim sendo, o dia foi passado a decidir que azulejos trocados devem ser levantados e substituídos por réplicas, quais as lacunas que podem ser colmatadas com azulejos originais levantados de outro lugar e ainda a escolher os melhores tons de vidrados adequados a cada réplica, segundo a sua posição dentro de cada silhar – tudo devidamente identificado e apontado, claro está.

Por volta das 17h estava com a minha cabeça em água e concluí que já não estava a perceber nada do que era para fazer e que o melhor seria voltar lá uma próxima vez, depois dos painéis se apresentarem já limpos e com os azulejos todos já nas suas posições definitivas, para aí, então,  ver quais as lacunas existentes e quais os desenhos a elaborar e assim, despedimo-nos e metêmo-nos de novo ao caminho, de volta a Aveiro.

Doze horas depois, na estação de Aveiro, carregada com amostras de cores de vidrados brancos e de tons de azul, amarelo, verde e manganês, apanhei então o intercidades das 18,24h, com destino a Lisboa e saí na Gare do Oriente, às 21.00h, onde me dirigi à paragem do autocarro 750 com a esperança de que ele aparecesse mal eu chegasse à paragem e que passados vinte minutos me metesse em casa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTO DE QUATRO

Terminei hoje o último quarto do painel que tenho estado a pintar para o revestimento de um balcão com quatro metros de comprimento e que tenho de entregar no dia 17 deste mês.

Estou ansiosa para finalmente ver o painel inteiro – vai a cozer esta noite e entretanto tento arranjar espaço para o estender no chão aqui da oficina; confesso que estou um pouco receosa com as transições entre os quatro segmentos, não tenho a certeza se são feitas harmoniosamente ou não. De qualquer modo e, à cautela, daqui a dois dias já vejo resultados e se alguma coisa estiver mal, ainda tenho tempo de a refazer ou aperfeiçoar e entregar tudo no prazo pedido.

 

 

 

AZUL E BRANCO

Às vezes acontece-me isto. Pedem-me um orçamento para a manufactura de um painel de azulejos, com um determinado tipo de decoração e tamanho e até amostras de cor de possíveis vidrados em tons âmbar e depois, afinal, o painel vai ser maior do que aquilo que estava previsto, os vidrados transparentes desaparecem e a decoração pedida passa a ser aquela tradicional, figurativa, a azul e branco – aquela que eu não sei fazer e que normalmente recuso; não sou uma pintora de painéis de azulejos, há quem faça disso a sua vida e o faça muito melhor do que eu.

Mas às vezes acontece-me isto; e não sei bem como, nem de que maneira, mas dei por mim a pintar uma paisagem rural, a azul e branco, num painel de azulejos de quatro metros de comprimento, que ainda por cima não me cabe todo no taipal e que tem de ser pintado em quatro quartos, um de cada vez e que tenho a sensação de ir avançando com o trabalho sem ter bem a certeza do que é que estou a fazer e sempre com medo que saia tudo mal, mas enfim; eu avisei.

 

 

 

DEPÓSITO/RESERVATÓRIO/CONTENTOR

Há coisa de um mês fui a uma visita guiada à horta da Faculdade de Ciências de Lisboa e confesso que desde aí tenho andado obcecada com a ideia de manufacturar pequenos vasos, marcadores para plantas, medidores de humidade da terra e qualquer coisa que rentabilize a rega, não só no dia-a-dia, mas principalmente naquelas alturas em que uma pessoa está fora de casa.

Ainda em fase experimental – muito experimental -, tirei hoje do forno este pequeno contentor em terracota, baseado numa técnica de rega ancestral, com mais de 4000 anos, que permite manter o solo sempre irrigado, limitando o consumo de água de uma forma sustentável.

Inspirada pelas antigas Ollas – maravilhosas! – a ideia é enterrar este cone dentro do solo, apenas com a boca de fora, e enchê-lo com água. Ao ser porosa, a terracota vai libertando a água para a terra de uma forma constante e sem excesso, de acordo com o seu grau de humidade e com a necessidade das plantas. Ao regar assim e em profundidade, perto das raízes, consegue-se também poupar uma boa parte da água que muitas vezes se evapora quando a rega é feita à superfície.

Para já estou muito contente com este resultado; agora falta ainda testar uma série de aspectos, como tamanhos e respectivas capacidades de água, encontrar cortiça boa para fazer de rolha e definir um nome para isto.


 

FRISOS RELEVADOS

Saíram hoje do forno os primeiros exemplares das réplicas de frisos do séc. XVI, que fiz para o Palácio Nacional de Sintra e que irão ser colocados num pequeno posto da Sala Árabe, inseridos no novo circuito de acessibilidades para visitantes com necessidades especiais.

Estou um pouco reticente quanto aos tons, especialmente dos da peça inferior, mas na verdade, os originais na parede apresentam tantas nuances entre eles, que estou a pensar assumi-los assim – uma vez que se tratam de réplicas e que não estarão integradas dentro do conjunto azulejar.

Ou então não; como sempre e, por precaução, fiz chacotas a mais e tenho quase a certeza de que não vou resistir a vidrar mais uma ou duas com outras tonalidades diferentes e depois levo todos os que tiver e nessa altura sempre se podem escolher os que parecerem melhor. Ao fim e ao cabo, só me pediram dois exemplares de cada.

CRUA – SEGUNDA PARTE

E a semana acabou assim: estive a vidrar a peça inferior da réplica do friso cerâmico da Sala Árabe do Palácio Nacional de Sintra e que faz conjunto com esta que já mostrei aqui.

Coisas que hoje aprendi, depois de fazer mal:

  • é melhor vidrar primeiro as superfícies laterais e só depois, então, vidrar o fundo e os topos, fica um acabamento mais perfeito;
  • para vidrar com trincha parece-me melhor que o vidrado esteja um pouco mais líquido, mesmo arriscando ter de repetir as passagens três ou quatro vezes no mesmo sítio, em várias direcções;
  • com a pera de borracha convém que o vidrado esteja um pouco mais cremoso;
  • nada como trabalhar com as ferramentas adequadas a cada tarefa e ao fim que se pretende (esta já sabia, mas confirmei);
  • melhor trabalhar com luz natural – da parte da manhã, no caso aqui da oficina (esta também já sabia, mas fiz à tarde, com luz artificial);
  • já percebi porque é que esta técnica não teve grande desenvolvimento, dá imenso trabalho e demora-se um tempão para fazer um só azulejo, imagino que saíssem caríssimo!

Segue hoje para o forno, resultados só na segunda-feira.