SACRISTIA

Fui contactada para ir fazer uma intervenção de emergência nos azulejos da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa – quer na zona da secretaria, quer na salinha dos paramentos.

Segundo consta, o culto a Nossa Senhora da Saúde começou em inícios do séc. XVI, época da grande peste. O povo, ao ver que todos os recursos humanos falhavam, recorreu a Nossa Senhora, organizando procissões de penitência em sua honra. Como o número de mortes foi diminuindo consideravelmente, passou a fazer-se uma grande procissão anual de agradecimento à Virgem Maria, a qual passou a ter o título de Nossa Senhora da Saúde.

Em meados dos anos 80, já no séc. XX, a Câmara Municipal de Lisboa mandou construir o Centro Comercial da Mouraria; o que estaria muito bem, não fosse a ideia brilhante de o colar, paredes meias, com esta igreja, mais precisamente com a zona da sacristia. Obviamente que essa construção colocou e continua a colocar em risco o estado de conservação do edifício, quer a nível estrutural quer a nível da incompatibilidade dos materiais. Neste momento, uma das paredes – a tal que precisa de intervenção de emergência – encontra-se escorada e em risco de colapso (e o tecto em madeira também não me parece que se safe) e é claro que os azulejos lá existentes, datados do séc. XVIII, precisam de ser levantados e, para já, acondicionados numa caixa.

Mais uma vez pude constatar o estado a que chegou o nosso património edificado, vítima de incúria, ignorância e asneirada consecutiva ao longo de vários anos, por parte de quem deveria ter conhecimentos, bom senso e capacidade de bater o pé e dizer não! – mesmo que outros interesses mais altos se levantem.

Neste caso, nem a Nossa Senhora lhes valeu.

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6 thoughts on “SACRISTIA

  1. Muito triste mesmo esta situação! E que belos azulejos! Foi bom saber por você que são do séc. 18, pois eu jamais pensaria isso. Eles são muito parecidos com coisas que fizeram por aqui em meados do séc. XX, em particular no período da moda neocolonial, que naturalmente ia buscar referências no passado português.
    bom trabalho, e espero que a igreja se salve a tempo!
    Fábio

    • Oi Fábio! Este texto cria alguma confusão – não está de acordo com a foto e leva ao engano. Estes azulejos da fotografia, existentes na sacristia, mas numa pequena salinha onde os padres se vestem, são do séc XX, realizados na extinta Fábrica de Sacavém. Os que eu me refiro no texto, os do séc. XVIII, encontram-se também na sacristia, na tal parede problemática. A questão é que eu gostei mais desta fotografia para ilustrar este artigo – mas pronto, já vi que não foi bem conseguido… 😛

      • Ah ok! Nossa, então eu não estava tão errado assim, afinal! Pois eles me pareceram mesmo algo feito pelo século XX, como disse antes. Ah! Acho que terei de voltar a Portugal então para ver os azulejos do séc. 18, Mas até que eu possa fazê-lo, não sei se já estarão de volta às paredes. Quem sabe num post futuro, sobre esta restauração, eu não veja aqui os quadradinhos que adoramos!!
        b’jinhos!

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